Católicos diminuem e evangélicos crescem no Brasil

O Brasil tinha no ano 2000 quase 2 milhões de católicos a mais que em 1991, mas esse aumento não é uma boa notícia para a Igreja Católica no País. Houve uma queda de dez pontos porcentuais em nove anos e os que se identificam como católicos apostólicos romanos, que eram 83,8% da população brasileira, agora representam 73,8%. Se fosse mantido o índice do início da década, o País teria 142,2 milhões de católicos. Tem, no entanto, 124,9 milhões, o que representa uma diferença de 17,3 milhões de fiéis. A tendência de queda já vinha da década anterior, mas foi acentuada. No censo de 1980, 88% da população se declarou católica.No caminho inverso estão os evangélicos. Eram 13,3 milhões em 1991. Agora são 26,1 milhões, quase o dobro. Tinham uma fatia de 9,1% da população e chegaram a 15,4%. Também os que afirmam não ter nenhuma religião cresceram. Em números absolutos, foi um aumento de 5 milhões de pessoas. Eram 7 milhões em 1991, ou 4,8% da população. Passaram para 12,3 milhões em 2000, chegando a 7,3% dos habitantes.No Censo 2000, o Rio de Janeiro destacou-se como o Estado com maior diversidade religiosa. Tem o maior índice de não-católicos (42,8% da população) do País, repetindo um fenômeno que já havia sido constatado na pesquisa demográfica de 1991. A diminuição do rebanho católico foi acentuada no Norte e chegou a 18 pontos porcentuais em Roraima e a 15 pontos em Rondônia e no Acre. Está em Rondônia o maior índice de evangélicos: 27,7% da população. Na divisão por região, o Centro-Oeste apresenta o maior porcentual de evangélicos, com 19% e o menor de católicos, com 68,8%.Também foi grande a redução de católicos no Espírito Santo. Em 1991, 75% dos capixabas declararam-se católicos apostólicos romanos. Em 2000, esse índice foi de 61%, revelando uma queda de 14 pontos porcentuais. Houve, em contrapartida, um aumento de evangélicos, que eram 17,5% da população do Espírito Santo e passaram a 27,5%.Embora a proporção de católicos tenha diminuído em todos os Estados, o Nordeste continua a ser a região com a maior presença católica no País, com 80% da população. A maior concentração está no Piauí, com 91,3%, revelando uma queda de apenas 3,7 pontos porcentuais em relação a 1991. É o único Estado em todo o País onde a proporção de católicos supera os 90% dos habitantes. Os homens são maioria entre os entrevistados que se declararam sem-religião. Para cada cem mulheres nessa categoria, há 152,3 homens. Já entre os que têm alguma religião, há mais mulheres, especialmente evangélicas. Para cada cem pessoas do sexo feminino evangélicas, há 78,7 homens. Em relação aos católicos, os homens só são maioria na área rural. Para cada cem mulheres católicas nessas regiões, há 110,8 homens. Na contem geral de católicos do País, há 97,8 homens para cada cem mulheres.Um subdivisão feita pelos recenseadores indica que a grande maioria (67,6%) dos evangélicos pertence a igrejas de origem pentecostal, como Assembléia de Deus, Igreja Congregacional Cristã do Brasil e Igreja Universal do Reino de Deus. Estas três reúnem 12 milhões de fiéis, do total de 17 milhões de pentecostais. Sete milhões são estão na categoria "de missão", sendo 3 milhões fiéis da Igreja Batista. Os demais disseram ser fiéis de outras religiões evangélicas.Sem religiãoA estudante de turismo Alessia Isabella Nemichini, de 20 anos, diz que até tentou ser católica. A moça, que não foi batizada porque a mãe acredita que não se deve impor a religião, chegou a freqüentar encontros de jovens católicos. Mas desistiu. "O que a Igreja prega não tem nada a ver com o que eu acredito a respeito da relação entre os homens", justificou. "Minha avó dizia que toda religião é boa por ensinar o bem. Se você tem uma família que ensina o que é correto, o que são princípios e a ter bom caráter, não precisa de religião".Alessia faz parte do grupo de 2.224.028 pessoas que moram no Rio de Janeiro e declaram não ter religião - esse número corresponde a 15,53% da população do Estado, de acordo com os dados do Censo 2000 divulgados pelo IBGE. Isso significa que o Rio tem o dobro da média nacional daqueles que não têm religião - 7,3% dos brasileiros. "Acho que isso acontece porque aqui sempre teve grande diversidade cultural, as pessoas têm acesso à informação, e não precisam de uma religião para dar sentido às suas vidas", arrisca o estudante de sociologia Daniel Ganem Misse, de 21 anos. Amigo de Alessia, ele também não tem religião. Os dois visitam igrejas e templos somente em viagens. "É interessante por causa da arquitetura", diz Misse. Às vezes, nem a passeio. "Meu pai conta que quando eu era criança fui expulsa da Mesquita Azul, na Turquia, porque eu não parava de chorar", lembra Alessia.A família de Misse é exemplo de outro dado revelado pelo Censo 2000 - o de que o Rio, por ser o Estado menos católico do País (57,16%, quando a média nacional é de 73,8%), é aquele que tem maior diversidade religiosa. Os avós do estudante eram cristãos ortodoxos. A mãe já foi adepta do hinduísmo. "Hoje ela é um pouco de tudo o que tem a ver com espiritismo oriental", explica Misse. O pai, quando marxista, era ateu. "Agora ele diz que é católico não-praticante".O estudante diz que a mistura religiosa na família nunca provocou confusão. "Fui criado longe da cultura católica, e vejo com curiosidade as religiões orientais. Até gostaria de estudá-las. Mas sempre fui seguro sobre o fato de não ter religião", diz.

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