Castro se esqueceu de que mosquito não entra em boca fechada

Para evitar que o processo de impeachment avançasse no Congresso, a presidente Dilma Rousseff foi obrigada a abrir espaços dentro do governo em troca de apoio parlamentar. Prática corriqueira e desastrosa na relação entre Executivo e Legislativo, esse toma lá dá cá de cargos em troca de votos é a justificativa mais visível para explicar a ineficiência do governo no combate às epidemias de zika e dengue.

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2016 | 07h25

Em troca do apoio do grupo peemedebista liderado pelo deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), o governo cedeu vagas generosas no seu primeiro escalão. Uma dessas foi justamente a pasta da Saúde, entregue ao deputado federal Marcelo Castro (PMDB-PI). Embora seja médico por formação, com doutorado em psiquiatria, Castro é especialista mesmo em ser político. De família política tradicional no Piauí, conseguiu seu primeiro mandato como deputado estadual em 1982. Ou seja, já se vão mais de três décadas desde que começou a operar na política. Tanto que, nesse meio tempo, trilhou uma longa carreira como parlamentar e ocupou a secretaria estadual de Agricultura, no seu Estado. Não tem passado profissional recente ligado ao setor. Muito menos de combate aos mosquitos.

Na prática, o governo abriu mão de ter no ministério um especialista, como era o caso do antecessor de Castro - o sanitarista petista Arthur Chioro. A partir do momento em que o risco de degola da presidente ficou para trás, cabe ao governo, agora, administrar a crise dos mosquitos e a dificuldade que o ministro vem enfrentando na gestão desse processo.

A crise já ultrapassou as fronteiras nacionais e a Organização Mundial de Saúde (OMS) já emitiu alerta avisando que a doença deve se espalhar pela maior parte do continente. Já há registro de casos até nos Estados Unidos, atrapalhando a imagem externa do Brasil.

Os problemas de administração do ministério poderiam até ficar menos evidentes se o ministro Marcelo Castro não tivesse uma característica: ele produz frases polêmicas sobre o assunto quase na mesma velocidade em que o mosquito ataca.

Talvez influenciado pela crise econômica, também quis regular futuras vacinações contra essas doenças e passou a “torcer” para que as mulheres pegassem a doença antes do período fértil: “Não vamos dar vacina para 200 milhões de brasileiros. Vamos dar para as pessoas em período fértil. E vamos torcer para que as pessoas antes de entrar no período fértil peguem a zika”.

Integrantes do governo, entretanto, não esconderam sua irritação com a última fala feita pelo ministro, declarando que o País estava perdendo a guerra contra o mosquito, justamente num momento em que está sendo montada toda uma estratégia para atacar a crise.

A declaração caiu tão mal no Palácio do Planalto que já ameaça a permanência do ministro. Até porque ele já deveria ter entendido que, depois de tantas falas polêmicas, em boca fechada não entra mosca...nem mosquito.

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