Cassação de Renan será decidida em plenário, define CCJ

No Senado, chances de absolvição do senador são grandes, uma vez que o voto dos 81 senadores será secreto

05 de setembro de 2007 | 19h13

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado encaminhou para votação em plenário o processo que pede a cassação do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). As chances de absolvição do senador são grandes, uma vez que o voto dos 81 senadores será secreto e ele só precisa de 41. O relator na comissão, senador Tasso Jereissati (CE), concluiu em seu parecer que não havia "vício de inconstitucionalidade" no documento e foi seguido por 20 senadores. Houve apenas um voto contrário - o de Wellington Salgado (PMDB-MG), aliado de Renan - e duas abstenções. A decisão será submetida ao plenário provavelmente na próxima quarta-feira, 12. Veja também: Caso Renan pode prejudicar CPMF, diz David Fleischer  Veja a cronologia do caso Renan Íntregra do relatório que pede a cassação de Renan  Entenda as três frentes de investigação contra Renan Em resposta a aliado de Renan, relatores defendem cassação'Vamos ganhar... É ter calma', afirma Renan sobre cassaçãoAliado de Renan, Salgado não vê indícios para cassaçãoDenúncias contra Renan abrem três frentes de investigação Nova denúncia: Renan tem de explicar propinas   O relatório já aprovado por 11 a 4 na manhã desta quarta-feira, 5, no Conselho de Ética trata de processo no qual Renan é acusado de ter despesas pessoais pagas por um lobista da Mendes Júnior. O parecer dos relatores Renato Casagrande (PSB-ES) e Marisa Serrano (PSDB-MS) citavam oito irregularidades que caracterizariam quebra de decoro.  Depois de exatamente três meses de tramitação da representação do PSOL, Renan não conseguiu explicar suas ligações com o lobista da Mendes Júnior Cláudio Gontijo, que entregava à jornalista Mônica Veloso (com quem tem uma filha de três anos) dinheiro para custear suas despesas pessoais.  Além do processo votado nesta quarta-feira, Renan é alvo de outras duas representações. Uma delas, de iniciativa do PSOL, se refere a seu suposto lobby na Receita Federal e no INSS para favorecer a cervejaria Schincariol, após a empresa ter pago R$ 27 milhões pela fábrica de refrigerantes do deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), seu irmão. A outra, apresentada pelo DEM e pelo PSDB, pede que seja investigada a sociedade de Renan com o usineiro João Lyra na compra de um jornal diário e duas emissoras de rádio em Alagoas em nome de laranjas. Tropa de choque As três horas e quinze minutos de duração da sessão foram marcadas basicamente pela tentativa da tropa de choque de Renan mostrar que o presidente do Senado não cometeu quebra de decoro. Tentaram, mas não conseguiram, e o que se viu foram declarações avulsas contestando aleatoriamente a perícia da Policia Federal. Num momento inflamado de defesa, o senador Wellington Salgado (PMDB-MG) resumiu, no voto em separado que apresentou, a situação de Renan a uma polêmica sobre ter ou não filhos fora do casamento. E ele próprio concluiu: "Filho fora do casamento nem de longe constitui quebra de decoro parlamentar."  Mais na frente, Wellington resolveu atacar os relatores do parecer que pede a cassação do mandato de Renan, Renato Casagrande (PSB-ES) e Marisa Serrano (PSDB-MT). "Se mentir no conselho é quebrar o decoro, indago-me se a quebra de decoro não partiu da própria relatoria neste caso", ameaçou. Seu parceiro na defesa inveterada de Renan, senador Almeida Lima (PMDB-SE), chamou o voto do colega de "demolidor". "Diante do seu parecer vossa excelência foi demolidor. O voto de vossa excelência é irrespondível", afirmou. Na defesa de Renan, Wellington leu um parecer de 34 páginas, provavelmente feito pela defesa de Renan, no qual procurou desconstruir ponto por ponto os oito itens levantados pelos relatores Marisa e Casagrande, que indicavam a quebra de decoro de Renan.  Casagrande e Marisa responderam: "Fomos duros no nosso relatório. Mas nunca desleais. Nosso relatório é técnico e não temos nada de pessoal contra o senador Renan", disse Casagrande. "Eu teria todas as razões políticas para votar a favor de Renan Calheiros, mas a minha posição aqui está embasada em provas de que ele não agiu como se espera de um parlamentar", completou o senador. "Fizemos um relatório em cima da ética e do decoro", insistiu Marisa, defendendo o trabalho que foi feito por eles.  Tudo pareceu milimetricamente ensaiado na sessão desta quarta-feira. A ênfase do demolidor Wellington na defesa de seu voto transformou-se pouco depois num pedido de desculpas sutil a Casagrande e Marisa. Ele se dirigiu aos dois e os beijou na cabeça. Wellington também pediu para suprimir do seu voto o trecho no qual afirma que o corregedor do Senado, Romeu Tuma (PFL-SP), mandou engavetar a representação. Fez isto depois de Tuma afirmar que tal fato não ocorreu. O presidente do PSDB, Tasso Jereissati (CE), que na última reunião chamou Almeida Lima de "vendido e boneca", ontem permaneceu em silêncio. O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ironizou o relatório de Wellington: "O seu parecer foi muito inteligente. Tentou semear a cizânia, mas não teve o condão de desvalorizar as conclusões sérias (da perícia da PF e do parecer de Marisa e Casagrande)." Tumulto Se não houve briga do lado de dentro, o mesmo não aconteceu do lado de fora ontem. Após o término da reunião do conselho, houve tumulto entre os jornalistas e um segurança do Senado, que tentou agredir um cinegrafista. Coube aos senadores Arthur Virgílio (PSDB-AM) e José Nery (PSOL-PA) tentar apartar a briga. Casagrande resumiu o espírito: "Aqui sempre tem de ter uma confusão. Hoje, como não foi lá dentro, teve que ter briga aqui fora."  (Com Ana Paula Scinocca e Rosa Costa, do Estadão) 

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