Caso Bruno é chance para rever relação entre clubes e atletas, diz especialista

Para consultor de marketing esportivo, episódio pode resultar na criação de código de conduta.

Alessandra Corrêa, BBC

09 Julho 2010 | 15h42

A prisão do goleiro Bruno Fernandes, do Flamengo, acusado de participação no desaparecimento da ex-amante, pode levar os clubes brasileiros a rever sua relação com os atletas, diz o especialista em marketing Alberto Sutton.

"Isso pode fazer com que repensem até que ponto o clube perdoa o comportamento de determinados jogadores apenas por causa de sua fama", diz Sutton, brasileiro que há 11 anos atua nos Estados Unidos e tem como clientes diversas empresas ligadas ao esporte.

Sutton cita os casos de Adriano e Vágner Love, outros dois jogadores do Flamengo que também estiveram envolvidos com problemas com a polícia.

Adriano testemunhou por duas vezes em uma investigação a respeito do tráfico de drogas na favela da Vila Cruzeiro, onde tem uma casa. Vágner Love prestou esclarecimentos à polícia após o vazamento de um vídeo com imagens suas ao lado de traficantes armados.

Adriano foi interrogado pela polícia após a divulgação de uma foto sua ao lado de um amigo segurando rifles automáticos e fazendo o sinal do Comando Vermelho, grupo criminoso do Rio. Vágner Love apareceu em um vídeo ao lado de homens com rifles e uma bazuca, em uma favela carioca.

Segundo o especialista, o caso Bruno também pode fazer ainda com que os clubes passem a ser mais rígidos na seleção de quem pode falar em seu nome, como fazem empresas de outras áreas e até mesmo algumas equipes estrangeiras.

Ele lembra uma entrevista recente em que o próprio Bruno provocou polêmica ao perguntar "quem nunca saiu na mão com uma mulher".

"O processo de seleção e aprovação de quem pode falar em nome de uma empresa é muito rígido, mas o mesmo não ocorre nos clubes brasileiros", diz Sutton.

Patrocínio

Na opinião de especialistas em marketing esportivo, a fuga de patrocinadores e anunciantes é o efeito mais imediato de um escândalo envolvendo celebridades esportivas.

Nos Estados Unidos, calcula-se que o golfista Tiger Woods - envolvido em um escândalo de adultério no fim do ano passado - tenha deixado de ganhar entre US$ 23 milhões e US$ 30 milhões com o cancelamento de contratos com patrocinadores.

Logo após a prisão de Bruno, a fabricante de materiais esportivos Olympikus suspendeu o contrato de patrocínio com o goleiro até o fim das investigações. Os especialistas avaliam, no entanto, que ainda é cedo para medir o impacto do caso do jogador brasileiro.

"Em casos de escândalos com celebridades esportivas, a reação dos patrocinadores costuma variar de cliente para cliente", diz Mario Flores, diretor da empresa de marketing esportivo e relações públicas Sportivo, em Los Angeles.

"Alguns patrocinadores se retiram imediatamente, para preservar sua imagem. Outros recuam e esperam, para avaliar a melhor estratégia", afirma Flores, que é especialista no mercado esportivo latino nos Estados Unidos.

Imagem

Apesar dos abalos, os especialistas consultados pela BBC Brasil dizem que a imagem do Flamengo não deve sofrer maior impacto.

"Não acho que vá prejudicar a imagem do clube. O Flamengo é muito maior do que um jogador, tem uma longa história, e os torcedores e patrocinadores vão entender que se trata de um caso pessoal", diz o jornalista esportivo venezuelano René Rincón, que há sete anos atua como relações públicas esportivo nos Estados Unidos.

Segundo Alberto Sutton, o Flamengo agiu rapidamente para dissociar sua imagem de Bruno e não deve sofrer maiores danos.

O Flamengo suspendeu o contrato com o goleiro, que vai até o fim de 2012, logo depois de sua prisão. O advogado do clube, que até então prestava assistência a Bruno, também se retirou do caso.

"(O caso) não vai influenciar os torcedores do Flamengo", diz Sutton.

Fãs

Em relação ao jogador, porém, o comportamento dos fãs pode ser diferente. "Depende do crime de que o jogador é acusado. Se é um deslize, às vezes isso mostra que o jogador é humano, e faz com que os fãs se identifiquem mais com o atleta", afirma Sutton.

O especialista cita casos como os de Adriano, Ronaldo e do próprio Tiger Woods, em que muitos fãs acabaram perdoando os "deslizes" de seus ídolos.

"Mas, em outros casos, o delito cometido pelo atleta extrapola os limites", diz Sutton, ao mencionar o exemplo do ex-jogador de futebol americano O. J. Simpson, que foi acusado de assassinar a ex-mulher e um amigo dela.

Simpson foi inocentado da acusação em 1995, mas, em 2008, acabou condenado a prisão por ter roubado artigos esportivos para colecionadores e sequestrado dois vendedores.

"Em casos em que o atleta é acusado de um crime como assassinato, a reação dos fãs é diferente, extrapola a identificação com uma suposta fraqueza que tornaria o ídolo mais humano", diz Sutton. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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