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Casamento aberto

A fidelidade partidária não é norma escrita nem praticada entre nós, sabemos disso. Mas, sempre foi costume manter as aparências. Os infiéis atuavam por baixo dos panos, mantinham alguma discrição, deixando espaço para o desmentido da traição.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2014 | 04h04

Desde ontem, porém, ficaram revogadas quaisquer cerimônias depois do ato público do PMDB do Rio de Janeiro de adesão à candidatura do tucano Aécio Neves, cinco dias antes da convenção do partido que, conforme assegura o vice-presidente Michel Temer, renovará a aliança com o PT no plano federal.

Em matéria de infidelidade, nunca se viu nada igual. Houve, em eleições passadas, o movimento "Lulécio", que buscava eleitores de Lula e Aécio, rifando a candidatura presidencial tucana em Minas Gerais. Houve também a adesão do então presidente do PSDB à candidatura de Ciro Gomes, em detrimento do desafeto José Serra.

Mas, nada parecido com o ato de ontem que reuniu nove legendas, mais da metade dos prefeitos do Estado, centenas de pessoas e as principais lideranças regionais do partido num almoço de arromba para celebrar o oponente da presidente Dilma Rousseff por ora mais bem posicionado nas pesquisas.

O movimento chama-se "Aezão", junção dos nomes de Aécio e (Luiz Fernando) Pezão, o vice-governador que assumiu com a renúncia de Sérgio Cabral Filho e que agora concorre pelo PMDB. Com o apoio da presidente Dilma, a quem ele também confere todas as honras. Não a ponto de ter feito um gesto contrário ao ato oficial (sim, pois lá estavam todas as instâncias oficiais do PMDB regional) de adesão ao adversário.

Nem o governador nem Cabral estiveram no almoço, mas digamos que não seria necessário. Ficou muito bem entendido: desta vez, o casamento com o PT é uma relação "aberta". O PMDB dá o tempo de televisão, recebe em troca a vice-presidência, mas não tem obrigação alguma de pôr sua mão de obra nos Estados a serviço da campanha pela reeleição da presidente.

O apoio do PT em eleições anteriores foi um ativo para os partidos aliados. O desafio do governo é que não se transforme em um passivo. Enquanto o Planalto estava bem nas pesquisas, interessava aos políticos seguirem juntos. A virada dos ventos os leva à busca de alternativas.

Note-se o que corre em São Paulo. O ex-prefeito havia declarado apoio a Dilma e já começa a reexaminar a escolha, considerando não apenas a hipótese de ser vice do inimigo Geraldo Alckmin, como de não firmar aliança nacional com o PT para Henrique Meirelles poder ser vice de Aécio.

E Paulo Skaf? Diante da afirmação de Dilma de que ela teria duas candidaturas, a dele e a de Alexandre Padilha, para tentar derrotar o PSDB em São Paulo, deu um alto lá: "Aqui o PT é adversário".

Pela lógica. O jornalista estrangeiro pergunta à presidente Dilma Rousseff por que o Brasil está crescendo tão pouco. Ela responde: "Não sei".

De onde é improvável que saiba como fazer para o País crescer tão pouco.

Outra música. Com toda irritação, contestação aos gastos, megalomanias vexatórias e promessas descumpridas, uma coisa é certa: a maioria das pessoas não vai trocar a oportunidade de aproveitar o espetáculo de festejar uma Copa do Mundo no Brasil pela militância da reclamação.

Até porque os motivos não cessam e haverá tempo de sobra para protestar. Descontada a possibilidade de vaia nos estádios, da qual autoridade nenhuma está livre, o mais provável é que "baixe" no País um clima de relativa trégua no pessimismo.

Seria, porém, conveniente que o governo não tentasse se aproveitar e que a oposição se recolhesse um pouco em reconhecimento da insignificância da disputa eleitoral diante da magnitude das emoções dos embates em campo durante o Mundial.

Quem tentar atrapalhar ou tiver a intenção de se beneficiar vai enfrentar reação.

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