Casal bebe soda cáustica em garrafa de água Perrier

Para festejar os 25 anos de matrimônio, o casal brasileiro Wiliam e Aurora M. Maluf, que vive em São Paulo, veio a Paris para o tão sonhado giro turístico de um semana. Mas o programa terminou logo no começo, imprevista e melancolicamente no leito de um hospital.Eles desembarcaram em Paris na tarde de sexta-feira passada. Já no sábado à noite, eram levados pelo Corpo de Bombeiro ao Pronto Socorro, para serem em seguida internados durante 4 dias no Hospital Lariboisière. Tudo por causa de uns poucos goles da água mineral "Perrier" que tomaram na cervejaria "Le Deauville", na Avenida dos Champs Elysées. Segundo o testemunho de Wiliam à Polícia e à Agência Estado, Aurora pediu a água em dose dupla e, na primeira "puxada" no canudo, perguntou, atônita: "O que me serviram?", uma vez que as duas garrafinhas não foram abertas em sua presença. E passou a se queixar de queimaduras na boca, na garganta e dores agudas no estômago. O marido, que tomava cerveja, resolveu provar água da mulher e saiu se contorcendo para o banheiro, com crise de vômito. Diante da cena, os garçons Walter Roggero e Jean-Philippe Labador se arriscaram também no copo de Aurora e se deram mal do mesmo modo. O primeiro baixou hospital por um "golinho" e o segundo por haver sugado ligeiramente a rodela de limão do enfeite.Os agentes da Polícia Judiciária e uma equipe do Serviço Sanitário da Prefeitura de Paris ocuparam a cervejaria instantes depois, evacuando a clientela e recolhendo as garrafas "incriminadas" e o resto do estoque de "Perrier" para a perícia técnica.Enquanto isso, os exames de endoscopia feitos no casal pelo médico Najim Chafai acusaram lesões no estômago, com risco de perfuração, o que exigiria intervenção cirúrgica. Essa hipótese foi descartada por causa da eficácia da medicação. Os garçons foram liberados na madrugada de domingo, mas Roggero, pelo "golinho", terá que seguir um tratamento de dois meses para prevenir seqüelas. Na tarde de hoje, a diretora do Hospital Lariboisière, a médica Françoise Quesada, confirmou que o laudo da perícia técnica, realizada pelo Laboratório da polícia, era taxativo: a água servida aos brasileiros não passava, na verdade, de uma solução à base de soda cáustica, com um PH de 12.5, medida pouco inferior à da soda cáustica pura, cujo PH é 14."Eu não vi nem li o laudo, tive a informação da polícia por telefone", disse ela, para observar em seguida que a polícia, os serviços sanitários da Prefeitura e a Direção de Repressão de Fraudes do Ministério da Economia ainda não tinham uma idéia clara sobre o que havia acontecido com a água.As autoridades policiais negaram-se a falar sobre o caso e sobre o laudo. "Só a Procuradoria Geral da República pode se pronunciar ", disse o comandante da Policia Judiciária, Jacques Prévalet.Por sua vez, o gerente de "Le Deauville", Jean-Pierre Long, apressou-se em anunciar que o estabelecimento pagará as despesas hospitalares do casal Maluf. Eximiu o estabelecimento de qualquer responsabilidade, acentuando que os serviços sanitários não encontraram ali "nada de anormal".Foi idêntica a reação do chefe do Serviço de Imprensa da "Perrier", Emmanuel Manichon, para quem a apuração da ocorrência se complica pelo fato de as garrafas não terem sido abertas na presença do casal. E ponderou que um exame acurado do processo de produção do estoque de onde saiu a encomenda de "Le Deauville" não acusou qualquer irregularidade. "Fizemos a volta do problema, é absolutamente impossível que a solução corrosiva tenha passado pelo nosso sistema de controle, no qual cada garrafa, antes de ser enchida, é lavada e enxaguada 14 vezes", observou, acrescentando: "Os Agentes da Direção de Repressão de Fraudes já estiveram aqui e chegaram à mesma conclusão". A representante da "Perrier", Marie Christine Burato, visitou o casal no hospital na terça-feira, e levantou a possibilidade de tratar-se de "um ato de maldade ou de sabotagem".O certo que é Wiliam Maluf, executivo da indústria de tecidos Autotex, voltará para São Paulo no sábado e está decidido - como os dois garçons - a recorrer à Justiça francesa, ao término do inquérito policial, para obter uma indenização ?de quem for apontado como culpado na história". Ao passar hoje pela manhã na frente de "Le Deauville" para rever o local da tragédia, Maluf, recuperando o bom humor, imaginou um samba sobre "o amor conjugal" em Paris, que termina no hospital por causa de uma "Perrier nos Champs Elysées..."

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