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José Roberto de Toledo
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Carnais, líquidas e concretas

Seja investimento ou recompensa, o fato de empresas doarem dezenas de milhões de reais para candidatos e partidos fazerem suas campanhas eleitorais é sempre tocante. Especialmente porque são as mesmas desinteressadas e conhecidas doadoras. Computada apenas a primeira prestação de contas, as empreiteiras já doaram mais de R$ 50 milhões nestas eleições.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2014 | 02h02

O valor é alto, mas ficou parecendo mesquinho diante das contribuições de uma única empresa, de outro ramo. Sozinha, a JBS S.A. doou ao menos R$ 53,3 milhões até agora a candidatos de sete Estados e a presidenciáveis. Se a sigla não lhe diz nada, talvez uma de suas muitas marcas diga: Friboi, o frigorífico. Uma fração desse valor converteu Roberto Carlos em garoto-propaganda dos prazeres da carne. O que fará o dobro com os políticos?

Nada, claro. Não se deixe, caro leitor, levar pelo ceticismo. É tudo bem passado e embalado a vácuo. Nada contamina essa maminha eleitoral. É uma contribuição para lubrificar a democracia. Fazê-la funcionar sem atritos nem bois na linha.

A JBS S.A. é uma multinacional goiana. Líder mundial em exportação de proteína animal, abate 50 mil cabeças de gado por dia e vende sua carne para 150 países. Afirma empregar 185 mil funcionários em 340 unidades de produção. Em 2013, faturou R$ 93 bilhões e lucrou R$ 6,1 bilhões, antes dos impostos. A empresa deve cerca de R$ 33 bilhões e tem muitos negócios com o banco estatal federal BNDES, que financiou sua fusão com outros frigoríficos.

Diante desses valores, os R$ 53,3 milhões para a eleição são miúdos. Foram R$ 5 milhões da JBS S.A. para a campanha de Dilma Rousseff (PT), R$ 5 milhões para a de Aécio Neves (PSDB), mas só R$ 1 milhão para a de Eduardo Campos (PSB). Os mais de R$ 40 milhões restantes foram para candidatos do PMDB, PP, PR, PRP, PSB, PT e PSDB em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Bahia, Rio Grande do Sul e Alagoas.

Ainda no setor de alimentação e bebidas, outro doador desponta com força nestas eleições. A CRBS S.A. é mais conhecida por Ambev, dona nas marcas Antarctica, Brahma, Skol e Budweiser. Doou cerca de R$ 17 milhões para ao menos oito partidos em eleições diversas. Metade disso foi gasto em doses similares para Dilma e Aécio. Eduardo parece ter ficado a seco, por ora. Mais da metade do preço da cerveja é imposto, e subindo.

Seria injusto, porém, não mencionar o esforço de financiamento da democracia feito por outros setores da economia. Em especial aqueles que mais concretamente contribuem para pagar as contas das campanhas eleitorais. As empreiteiras aparecem em segundo plano nesta primeira prestação de contas, mas ainda têm muito tempo até outubro para recuperar seu protagonismo.

Avessas a expor sua generosidade em público, as empresas de engenharia engendram métodos diversos para construir o espetáculo da democracia. Às vezes doam aos partidos, às vezes aos candidatos, às vezes a comitês. E quando a modéstia é mesmo grande, recorrem à pessoa física de seus donos e diretores. Por isso, nem sempre dá para encontrar todas as doações do setor, mas é certo que superam R$ 50 milhões.

Entre as mais visíveis estão Construtura OAS (mais de R$ 12 milhões para partidos sortidos), UTC Engenharia (mais de R$ 10 milhões em investimentos diversificados geograficamente e, como manda a prudência, suprapartidários) e Construtora Queiroz Galvão (mais de R$ 7 milhões). Todas participam de obras públicas sob governos de diferentes tendências ideológicas, daí o seu pragmatismo. Há exceções, porém.

A Via Engenharia é uma construtora grande, a maior do Centro-Oeste, diz. Reformou o Estádio Nacional Mané Garrincha para a Copa, construiu CEUs em São Paulo, fez até a sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília. Mas só aparece, por enquanto, na contabilidade do PSDB nacional, com R$ 2,5 milhões em contribuições. Ai, se os outros partidos perceberem.

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