Ramiro Furquim/Estadão
Ramiro Furquim/Estadão

Carlos Moisés: ‘Pauta de governo tem de ser pauta relevante’

Para o governador de Santa Catarina, do PSL, Bolsonaro deveria se preocupar com ‘coisas mais importantes’

Entrevista com

Carlos Moisés, governador de Santa Catarina (PSL)

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2019 | 05h00

Eleito na onda que levou Jair Bolsonaro ao Planalto, em 2018, o governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), disse, em entrevista ao Estado, que, em vez de gastar energia com temas menores, Bolsonaro deveria “se preocupar com coisas mais importantes”. Como exemplo, citou o auxílio financeiro aos Estados e a revisão do pacto federativo, uma das promessas de campanha do presidente. “Pauta de governo é pauta relevante”, afirmou.

Durante a campanha o senhor disse que não é um “mini-Bolsonaro”. O que difere o senhor do presidente?

Foi a minha primeira entrevista depois que anunciei a candidatura. Alguns colegas disseram: “Puxa vida, perdemos a eleição, você tem de grudar sua imagem na do Bolsonaro”. Acontece que todos nós temos diferenças. Eu nunca fui político, Bolsonaro já era um político com 28 anos (de mandatos), tinha experiência no Legislativo, sempre foi muito ligado, a vida toda, à política. Também não defendo com unhas e dentes... Há algumas pessoas que têm ojeriza à defesa de minorias. Mas, se você é de extrema-direita, pode estar criando uma minoria.

E na prática administrativa?

Não entendo que um governador, por exemplo, deva se envolver em questões de menor relevância. 

Por exemplo?

Um exemplo é a questão do homeschooling (ensino residencial). É visível que esse não é um programa de governo para a Educação. Não sou contra homeschooling, mas não entendo que deva ser a bandeira de um chefe de Poder. O grande problema da educação brasileira não é essa pequena parcela que quer educar os filhos em casa, são as escolas sem laboratório, tecnologia e internet, com os telhados caindo, são as crianças em estado de vulnerabilidade que não conseguem chegar à aula, é a falta de transporte público e de estrutura rodoviária. 

Isso vale para outras áreas?

Eu entendo que as pautas de um estadista têm de ser aquelas que atendam à grande maioria das demandas por ações do Estado. Pauta de governo é pauta relevante.

Aumentar o limite de pontos para suspensão da carteira de motorista, por exemplo, é pauta de estadista?

Eu acho que não. O governo tem de se preocupar com coisas mais importantes como, por exemplo, o auxílio financeiro aos Estados. Estamos vendo no fórum dos governadores que os Estados não têm como pagar suas contas.

Como o senhor avalia estes primeiros cinco meses do governo Bolsonaro na economia?

O governo fez as propostas. Talvez não tenha caminhado rapidamente como a gente queria, esperava, já no primeiro semestre fazer todas as mudanças. Houve dificuldades políticas de encaminhamento. Mas o governo está fazendo a parte dele. Penso que logo depois que a nova Previdência for aprovada, o governo deve encaminhar a reforma tributária. Mas o auxílio aos Estados não pode esperar nem ser condicionado a que estas reformas aconteçam. Tem de ser concomitante.

O senhor vetou um projeto de lei que permitia a servidores trans usar o nome social no serviço público por razões ideológicas?

De forma alguma. Vetei o projeto por razões técnicas e, dez dias depois, refiz outro muito mais completo do que o anterior, por meio de decreto do Executivo. A militância de extrema-direita às vezes não entende como a gente pensa. Recebi as Mães pela Diversidade aqui no gabinete, postei uma foto na minha rede social com a bandeira da diversidade e sempre entendi o problema que elas enfrentam quanto à violência contra os filhos. Depois recebi o MST. Até me perguntaram se era “fake news”. Em Santa Catarina, temos 20 mil famílias assentadas. Eles existem. Não são uma ficção. Um estadista tem de governar para todas as pessoas. 

Houve alguma reação?

Acabei de participar de um evento do Ministério Público Federal sobre inclusão, acolhimento e interiorização dos imigrantes. A política da xenofobia muitas vezes é plantada por gente que se diz de extrema-direita. A gente sabe que nosso Estado não pode ser xenófobo, ele é resultado da mistura de povos, por isso ele é bom. Mas, às vezes, as pessoas cobram da gente como se uma ideologia de extrema-direita fosse prevalecer na ação de governo.

Por que o senhor desistiu de nomear dois técnicos para o segundo escalão que fizeram postagens críticas a Bolsonaro?

Não foi só esse o conteúdo das publicações. Havia, claramente, um apoio nosso ao governo Bolsonaro e, sendo do mesmo partido, explicitamente apoiando o governo, embora seja crítico de algumas ações. O meu corpo de funcionários tem de acreditar nisso também, nesse alinhamento com o governo federal.

O senhor se coloca em que ponto do espectro ideológico?

Centro-direita. Acho que tem algumas coisas que foram banidas e precisam ser recolocadas, mas de forma muito tranquila. Um exemplo é essa onda de criar colégios militares. A primeira coisa que a gente levanta é se aquela comunidade deseja um colégio militar. A partir disso, surgiu um novo modelo aqui em Santa Catarina, o colégio com gestão de alguns servidores militares, mas professores da rede pública normal. É um modelo que me atrai mais. Em algumas comunidades, as pessoas estão dizendo que não querem o extremo, onde todo mundo tem de marchar. Me imagino neste meio aí.

Os ruídos provocados por integrantes do governo e pessoas próximas do presidente Bolsonaro atrapalha a administração?

Quando eu falei que o estadista tem de trabalhar com políticas de Estado estava dizendo que o governo deve ser seleto naquilo que ele elege como pautas que valem a pena ser discutidas. Tem de ter certo cuidado para não ferir certos interesses. Nesta questão comunicação e das redes sociais a gente deve ter muito cuidado para não arrumar brigas que não vale a pena serem brigadas por um estadista.

O senhor trabalha há 30 anos no serviço público, mas nunca tinha participado de uma eleição até o ano passado. Qual a maior dificuldade que encontrou na atividade política?

Para nós era um grande teste saber se ia funcionar ou não a minha proposta de governar. Na transição, em novembro e dezembro, fui procurado por todas as lideranças, recebi deputados, e a imprensa questionava muito. Perguntavam como seria governar sem maioria, sem entrega de cargos. Eu sempre defendi a tese de que os deputados votariam pelo bem de Santa Catarina. Nossos testes estão acontecendo. Aprovamos uma reforma administrativa com unanimidade dos deputados presentes (quatro se ausentaram). Ontem (quarta-feira, 5), a Assembleia manteve cinco ou seis vetos mesmo com orientação das comissões para derrubarem. A forma como estão me relacionando politicamente está funcionando.

E qual é a fórmula?

A fórmula é simples. Inicialmente perguntavam: tem cargo? Não. E diziam que eu não iria resistir. Depois que os resultados começaram a aparecer, e a aprovação popular também, os políticos começaram a aderir. Eles sabem que a rejeição ao modelo antigo é o que resultou na minha eleição. Fiz exatamente o que prometi na campanha. Os políticos não são bobos. Eles sabem que em algum lugar vão ter de estar. Ou está do lado do governo ou do lado contrário. Então todos aqueles que têm uma alma republicana estão trabalhando na Assembleia independentemente de bandeiras político-partidárias porque sabem que a gente tem um grande respaldo popular.

E o que estes deputados ganham estando do lado do governo?

Como é que este apoio funciona? É gratuito? Não. Os deputados que estão com o governo participam naturalmente dos atos do governo. Eles são chamados. Não é uma combinação. Eles perceberam isso, da minha aproximação ou afastamento. A gente também percebe se tal deputado foi honesto no voto dele. Aquele que não pode votar com a gente às vezes nos procura para explicar. Essa pessoa a gente recebe na sede administrativa, a gente conversa, dialoga. Quando a gente vai na região dele fazer alguma entrega convidamos ele para participar. Isso de uma forma muito republicana. Não há nenhuma troca e eles não opinam sobre o que vai acontecer no governo.

O senhor tinha um discurso muito incisivo de defesa da nova política, contrário à política tradicional. Foi necessário modular o discurso e dialogar com os políticos?

Obviamente, como eu era uma novidade, só agora os alinhamentos começam a surgir. Temos uns 28 (de 40) deputados votando com a gente. É um relacionamento que está sendo construindo a partir de uma novidade. Nem nós sabíamos se daria certo. Mas acompanhando a renovação de mais de 50% dos deputados que acompanhou a nossa eleição acreditávamos que daria certo. E está dando certo.

Mas o senhor não está mais negando a política. Está fazendo política.

Não posso negar a política, primeiro, porque me filiei a um partido e, segundo, se aproxima a eleição municipal e já consigo perceber claramente que as propostas do governo do Estado são abraçadas por municípios ou nem tanto por questões meramente de política partidária. A gente começa a perceber que há um caso ou outro de prefeito que vai contra por questão meramente de divisão política. São ações isoladas. Os mais inteligentes e mais habilidosos na política já compreenderam este movimento.

Qual sua opinião sobre a exclusão dos Estados na reforma da Previdência?

Os Estados e municípios devem estar na reforma. Não aceitamos que se repasse aos Estados essa responsabilidade. Apesar de que Santa Catarina fez a lição de casa lá em 2015. Outros Estados ainda não avançaram. Não adianta termos o primo rico e o primo pobre.

O presidente prometeu na campanha alterar o pacto federativo.

É um avanço essa promessa do presidente. Falamos bastante com ele e o ministro Paulo Guedes sobre isso, sobre a importância redistribuir os valores. O governo federal tem sistematicamente lesado os estados na medida em que não repassa integralmente valores. Hoje os estados são deficitários e não tem como sobreviver.

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