DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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Cardozo rebate acusações e diz ter tratado de vazamentos em reunião com advogado

Ministro da Justiça afirmou que deve manter reuniões com defensores e explicou que conversou sobre vazamentos da operação com defesa da Odebrecht

Beatriz Bulla, O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2015 | 17h34

Brasília - O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se defendeu das críticas sobre encontros com advogados da Lava Jato e confirmou nesta tarde que tratou de vazamentos da operação na audiência que teve no último dia 5 com os defensores da empreiteira Odebrecht. A empresa reclamou dos vazamentos e disse avaliar que o inquérito que trata do caso não estava correndo como deveria.

"Advogado não é o cliente, advogado não está sendo acusado. E se tem alguma coisa acontecendo de errado na Polícia Rodoviária Federal, na Polícia Federal, quem é que tem que fiscalizar? O ministro da Justiça. É de uma obviedade total", disse Cardozo.

O ministro foi alvo de críticas por parte do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa que, no final de semana, sugeriu nas redes sociais a demissão do ministro. Na quarta, o juiz Sérgio Moro, que conduz os processos da Lava Jato na Justiça do Paraná, classificou como "intolerável" que advogados das empreiteiras tentem discutir o processo judicial com autoridades políticas.

"Ministro é ser impessoal, que não se ofende, mas como advogado sim (me ofendo). Qualquer pessoa, por mais hediondo que seja o crime, tem o direito de ter um advogado", completou.

Cardozo pediu que a Odebrecht formalizasse as informações em uma representação ao Ministério da Justiça, o que foi feito na sequência. "A empresa Odebrecht disse que ao longo da Lava Jato havia vazamentos ilegais que atingiam a empresa e que isso qualificava clara ofensa à lei", afirmou o ministro.

Quando aconteceram os primeiros vazamentos de conteúdo das delações premiadas do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, no ano passado, Cardozo anunciou que abriria uma investigação para apurar o caso.

A empresa levou ainda uma segunda reclamação ao ministro, que Cardozo não divulga em razão de segredo de justiça. 

Sigilo. A segunda representação foi encaminhada pelo ministro ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI) do Ministério e, posteriormente, encaminhada ao Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. "Após a visita da Odebrecht eu informei ao PGR que havia uma representação sobre essa questão e disse que após ouvir o órgão competente encaminharia ao MP para ciência e demais informações", afirmou o ministro.

"Em nenhum momento tocou-se na possibilidade de o governo ajudar na libertação de presos, em uma avaliação judicial minha do que poderia acontecer no futuro", disse Cardozo. "Só não posso revelar outro ponto da reunião porque há sigilo."

Ele disse ter "o maior interesse" na divulgação do conteúdo da segunda representação. "A Odebrecht levou duas questões que não dizem respeito ao Judiciário ou Ministério Público", disse o ministro. Segundo ele, são questões que dizem respeito ao Ministério da Justiça.

Cardozo afirmou que comparecerá no Congresso, se chamado para prestar esclarecimentos sobre o assunto na CPI da Petrobrás. "Irei com prazer. Não precisa nem me convocar. Se for convidado, vou", disse o ministro, fazendo a ressalva de que não poderá informar o que estiver ainda protegido por segredo de justiça.

Agenda. Segundo o ministro, a reunião com a Odebrecht foi registrada em ata e consta em sua agenda pública. "Continuarei recebendo advogados, com todas as cautelas formais, porque a lei me manda que seja assim e porque o estado de direito exige", completou.

Problemas na divulgação da sua agenda, noticiados pela imprensa, foram justificados por Cardozo como um "erro do setor de informática". De acordo com ele, houve uma mudança no sistema do Ministério e os compromissos alterados ao longo do dia não foram reincorporados, o que gerou a divulgação de 80 dias "em branco".

Cardozo afirmou ainda que advogados "não são membros de quadrilha" pelo simples fato de serem advogados e disse achar "lamentável" que no Brasil existam pessoas que "ainda pensam dessa forma". "A advocacia é atividade essencial para a justiça. " Ele evitou polemizar com Joaquim Barbosa e disse que o ex-ministro "tem total direito de falar aquilo que ele acha, que é uma opinião dele". 

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