André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Cardozo fica no Ministério da Justiça

Ministro acertou sua permanência no cargo com a presidente Dilma Rousseff mesmo após escancarar seu descontentamento com as críticas e pressões recebidas, principalmente por parte do PT

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2015 | 14h30

Atualizado às 23h07

BRASÍLIA - Após admitir a possibilidade de deixar o governo, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi chamado ontem pela presidente Dilma Rousseff para uma conversa no Palácio da Alvorada e saiu de lá no mesmo posto. Cardozo acertou sua permanência um dia depois de escancarar sua insatisfação com as críticas e pressões recebidas, no rastro da Operação Lava Jato, principalmente por parte do PT e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O “fico” do ministro foi precedido por um movimento para acalmar a crise, articulado por setores do governo e do próprio PT. Embora tenha divergências com Cardozo, Dilma não o dispensaria agora, no auge da Lava Jato. Na avaliação de interlocutores da presidente, uma eventual saída de um de seus principais auxiliares, neste momento, passaria a imagem de que o Planalto agiu para rifá-lo porque as investigações da Polícia Federal estão atingindo nomes de peso do PT e do governo.

Além disso, exporia ainda mais a fragilidade da presidente numa semana marcada por derrotas no Congresso, confrontos com o PMDB e rumores sobre a queda do vice Michel Temer da articulação política do Planalto. Depois de conversas, porém, tanto Cardozo como Temer continuam nos cargos.

Contrariedade. Em entrevista ao Estado publicada ontem, Cardozo admitiu nunca ter tido um dia fácil na pasta desde que assumiu o cargo, em 2011, e não escondeu a contrariedade com as alfinetadas do PT. “Se eu achar que não contribuo mais para o projeto e não sirvo mais à presidenta, sairei”, disse ele.

No Planalto e no PT, as declarações foram interpretadas como um teste de seu prestígio em meio à “pancadaria”. Se Dilma não lhe dirigisse um afago, ele estava disposto a entregar o cargo. Desde o fim do 1.º mandato de Dilma, o ministro repete que sua função tem “prazo de validade”. O plano original da presidente prevê que Cardozo permaneça na Justiça até a Olimpíada de 2016. Mas poucos acreditam que ele resista até lá.

Cobrança. Nos bastidores, Lula e outros petistas reclamam que o ministro não controla a PF. Na semana passada, a Executiva do partido decidiu convidar Cardozo para explicar os “vazamentos seletivos” das investigações. Foi o estopim para ele tornar público o seu descontentamento. “Eu tenho de prestar informações não só ao PT, mas a qualquer força política que deseje explicações em relação aos meus atos”, reagiu.

A decisão de chamar Cardozo foi considerada “um tiro no pé” pelo governo porque joga ainda mais luz sobre as pressões exercidas sobre o ele. Diante de mais uma crise, a cúpula do partido desistiu da “convocação” e a bancada petista na Câmara divulgou nota de apoio ao titular da Justiça. “Cardozo é fiel e luta pelo que acredita. Não há motivo para submetê-lo a essa tempestade”, endossou o ministro da Advocacia-Geral da União, Luís Inácio Adams.

Cardozo defendeu os colegas Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Edinho Silva (Comunicação Social), citados na delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC e alvo da Lava Jato. Disse, ainda, ter determinado ao diretor-geral da PF, Leandro Daiello, a abertura de inquérito e processo disciplinar para apurar vazamento na Operação Acrônimo, que investiga suspeita de irregularidades na campanha do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT).

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