Cardozo diz que declaração de Dilma sobre delator é 'indignação legítima'

Presidente afirmou nessa segunda-feira que 'não respeita delator', ao comentar a delação premiada feita pelo presidente da UTC, Ricardo Pessoa

Carla Araújo e Daniel Carvalho, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2015 | 13h37

BRASÍLIA -  O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, saiu nesta terça-feira, 30, em defesa da presidente Dilma Rousseff e disse que as declarações de que ela não respeita delatores é uma "indignação legítima daqueles que são honestos". "Ela fez a manifestação e tem todo direito de fazê-la", afirmou. "Qualquer pessoa que tem a honestidade intrínseca que Dilma Rousseff tem, que é intrinsicamente honesta, qualquer pessoa que tem a leve possibilidade de ser atingida, reage e reage com indignação", afirmou. 

Nessa segunda, nos Estados Unidos, Dilma deu a primeira declaração pública a respeito da delação premiada do dono da UTC, Ricardo Pessoa, que disse ter repassado R$ 7,5 milhões para a campanha da petista em 2014. Dilma afirmou que a contribuição da empreiteira foi registrada e realizada de maneira legal. "Eu não respeito delator. Até porque eu estive presa na ditadura e sei o que é que é. Tentaram me transformar em uma delatora", afirmou Dilma. 

Para Cardozo, apesar de a presidente não ter sido atingida diretamente na delação ela reagiu com a contundência das pessoas que se sentem injustiçadas. "Quando sua campanha, em tese,  foi atingida, ela tem o direito de expressar o seu ponto de vista e sua indignação."

Cardozo reiterou sua posição já manifestada no último sábado, quando concedeu coletiva ao lado do ministro da Comunicação, Edinho Silva, que foi citado no depoimento do ex-presidente da UTC, Ricardo Pessoa. "Cheguei a dar mina opinião sobre delação premiada. Delações premiadas são vias investigativas. Não pode sacramentar nenhuma situação porque o delator pode falar a verdade, meias verdades ou falar mentiras", disse.

Lula e o PT. Cardozo disse que não se encontrou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que esteve ontem e hoje em Brasília e negou que tenha sido cobrado pelo PT para dar explicações sobre os estragos causados ao partido pelas Operações Lava Jato e Acrônimo. "Não estive com o presidente Lula, não recebi nenhum convite do PT e, desde que existe a Lava Jato, tenho recebido muitas vezes reclamações e representações sobre eventuais abusos. Sempre que existe plausibilidade jurídica, determino as investigações e apurações necessárias", afirmou. 

Na quinta-feira passada, a Executiva Nacional do PT se reuniu em São Paulo e decidiu convidar o ministro da Justiça a dar explicações ao partido sobre as últimas ações da Polícia Federal, subordinada a ele. Ontem, Cardozo se reuniu com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para cobrar os "vazamentos" da delação de Ricardo Pessoa. 

Cardozo disse que a Polícia Federal tem que investigar com "liberdade e autonomia" e que a lei tem que ser igual para todos. "Não se pode obstar investigações quando investigação a amigos nem incentivá-las, quando os investigados são inimigos. Este é o papel o que o ministro da Justiça deve ter no Estado de Direito. Nem todos entendem isso", afirmou Cardozo, rebatendo indiretamente as criticas de seu partido. "Há quem ache que o ministro deve interferir, que o ministro deve seguir de acordo com suas convicções político-ideológicas ao exercer o seu papel. Não é a minha opinião. Enquanto eu aqui estiver, seguirei a minha consciência e o que determina a Constituição Federal."

Cardozo criticou os vazamentos seletivos e disse ter determinado a abertura de inquérito policial à Polícia Federal para apurar o vazamento de informações naquela Operação Acrônimo, que investiga irregularidades envolvendo a campanha do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT). "O STJ determinou expressamente que não poderia haver nenhuma divulgação e, logo pela manhã, sabíamos que a imprensa já tinha relatórios que eram submetidos a sigilo", disse o ministro.

Para Cardozo, a imprensa faz seu papel, mas é preciso investigar os vazamentos. "Este vazamento incorreu, como qualquer outro vazamento, em prática de crime por parte de quem tenha agido desta forma." O ministro disse estar investigando vazamentos em outras operações, inclusive na Lava Jato, e afirmou que está perto de identificar o responsável por repassar informações de uma das operações, sem revelar à qual se referia.

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