''Candidatura natural tem um nome: Serra''

Bornhausen pede ''bom senso'' e diz que ''erro não se repete'', numa referência à candidatura de Alckmin em 2006

Entrevista com

Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2009 | 00h00

Enquanto o PSDB discute prévias para escolher o candidato a presidente, o DEM declara sua preferência pelo governador paulista José Serra e prega o respeito dos tucanos a uma velha regra da política: a candidatura natural. "O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, é um bom nome e merece o maior respeito, mas, como ex-presidente do DEM, membro da Executiva e do Conselho Político, sou obrigado a dizer que há uma candidatura natural e sua tradução é José Serra", diz Jorge Bornhausen em entrevista ao Estado.A despeito dos elogios a Aécio na reunião do Conselho Político do DEM, semana passada, em São Paulo, a preferência por Serra vem desde 2006, quando o PSDB optou pela candidatura de Geraldo Alckmin. "Erro não se repete", adverte. Por isso mesmo, a aposta agora é em Serra.Bornhausen pede "bom senso" ao tucanato. A seguir, os principais trechos da entrevista.O DEM recuou da posição inicialmente contrária às prévias do PSDB? Não. Nós compreendemos a necessidade que tem o PSDB de dar uma boa solução para a escolha de seu candidato. Se eles entenderem que o caminho são as prévias, não há por que contestar. Queremos é que a solução seja boa.E a preferência do DEM é...Há uma regra em política sobre contrariar candidaturas naturais. Candidatura natural é aquela que tem a maior possibilidade de vitória e isto está constatado em todas as pesquisas. Se o PSDB vai decidir por prévias, ou não, a maioria do Conselho Político do DEM é pela candidatura natural, que tem um nome: José Serra.Mas o que define o candidato natural são as pesquisas de opinião?O candidato se define por pesquisas, pela densidade eleitoral do seu Estado, pela posição do Brasil em relação às circunstâncias da crise. Tudo isso indica a candidatura de Serra. Sem nenhum demérito ao governador Aécio, que faz boa administração em Minas, Serra é o melhor perfil para administrar na crise.Tem candidato que larga com 3% nas pesquisas e acaba vencendo a eleição, como Fernando Collor (1989). O sucesso de gestão em Minas não torna Aécio competitivo?Collor era candidato de um partido inexistente. Foi uma aventura política que deu certo, e em seguida deu errado. A escolha, agora, é de um partido grande, sólido, conceituado, com a responsabilidade de ganhar a eleição.Os aecistas do PSDB dizem que ele é a melhor opção pela capacidade de agregar apoios, sobretudo em uma eleição de dois turnos.Eu antevejo uma eleição bipolarizada. Tudo caminha na direção da candidata governista (ministra Dilma Rousseff) contra o candidato da oposição. É muito provável que esta eleição se defina no primeiro turno, porque será realmente um plebiscito em torno de quem poderá dirigir melhor o Brasil na crise.A grande preocupação do PSDB é que Minas Gerais está fechada com Aécio. Tem como trazer Aécio para o projeto Serra sem prévias?Se o caminho escolhido for o das prévias, será exatamente para atender o sentimento da maioria do partido.O sr. acredita que a maioria do PSDB é Serra, assim como o DEM?Eu acredito que a tese da candidatura natural não é a tese de um partido. É uma regra da política, e o bom senso me diz que esta regra será respeitada.Na condição de parceiro do PSDB na sucessão presidencial, qual é o prazo máximo que o DEM defende para a definição da candidatura?Os dois governadores - Aécio e Serra - têm suas obrigações de bem administrar seus Estados. Portanto, exigir que haja uma antecipação desta decisão do PSDB não é o caminho mais correto, porque ainda estamos bem distantes da eleição. Se este assunto for resolvido no final do ano, acho que é o tempo hábil para que tenhamos condições de, com a coligação já formada com o DEM e o PPS, acrescentar mais partidos. E acho que a preocupação deve ser a de conquistar uma boa parcela do PMDB. Sua aposta é que, mesmo em aliança oficial com o PT, na prática o PMDB não fecha com ninguém e uma parcela ficará com o PSDB?A verticalização acabou (regra que obrigava os Estados a reproduzirem a aliança nacional). Portanto, o PMDB de Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Pernambuco e Mato Grosso do Sul já está conosco (PSDB-DEM-PPS). Estará, portanto, na coligação do Serra. Isto está claro. O que não sei é que decisão o PMDB vai tomar em convenção.Com ou sem prévias, o fim da reeleição ajudaria a fechar um acordo no PSDB?Não acredito em reforma política, nem em reforma da Lei Eleitoral e da Lei Partidária e, muito menos, em mudança na Constituição para acabar com a reeleição. Acho que as regras da próxima eleição serão as mesmas da passada.Mas pode haver acordo político para acabar com a reeleição, como o que o sr. patrocinou entre o governador José Roberto Arruda (DEM) e o vice Paulo Octávio (DEM) na sucessão do DF?Acordo pode haver. E aí é um problema do PSDB. Não me compete interferir. Entendemos que precisa mudar a forma de administração que o PT vem dando ao País. Queremos melhorar e, por isto, queremos o candidato natural e, para isto, não estamos exigindo posição na chapa, embora tenhamos nomes à vontade.O que o sr. acha de uma chapa "puro-sangue", com Aécio como vice de Serra?O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem sempre lembrado essa hipótese e eu não posso deixar de aceitar a inteligência política de FHC.O lugar de vice na chapa do PSDB não está em aberto para atrair o PMDB?A melhor solução para a vitória é a certeza da recuperação do Brasil, que está mal administrado e não está enfrentando a crise como deveria. O presidente não tomou medidas adequadas na hora oportuna.Mas o povo está satisfeito e nunca houve um presidente com tanta aprovação popular nas pesquisas. Como o sr. explica esta contradição?Esta popularidade vai começar a escassear. Um protesto dos produtores de café em Varginha reuniu 30 mil pessoas e Lula foi vaiado. O desemprego é grande e o dinheiro do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) está sendo usado para piorar a situação, patrocinando fusões no setor da telefonia. Também há crise na pecuária, na siderurgia e no setor madeireiro.E a oposição tem sido eficaz?Há um erro no foco da oposição, concentrada no Congresso, que hoje não é bem visto pela opinião pública. É preciso partir para a sociedade. A atuação do presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), e do presidente da Fundação Liberdade e Cidadania, deputado José Carlos Aleluia (BA), convocando economistas para apresentar soluções construtivas para a crise, é elogiável. Devemos nos pautar por esse caminho e na fiscalização, acompanhando nos locais este plano de marketing denominado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), e mostrando o que não sai do papel.

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