Candidatos tomam precauções com a voz para enfrentar turnê eleitoral

Serra é adepto do mel e da água; já Dilma prefere as balas de gengibre

Gustavo Uribe, de O Estado de S.Paulo

23 Julho 2010 | 16h54

SÃO PAULO - O início oficial da campanha eleitoral deu novo ritmo ao dia a dia dos candidatos à sucessão presidencial. Além da agenda abarrotada, a nova rotina tem cobrado maior empenho das cordas vocais dos presidenciáveis nessa maratona eleitoral de discursos, entrevistas, gravações e convencimento do eleitorado. O resultado dessa turnê é invariavelmente a rouquidão e a perda quase completa da voz, um pesadelo para quem depende desse recurso para angariar votos.

 

Com o intuito de evitar problemas na fala, incômodo que já rendeu dor de cabeça às equipes de campanha, Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) têm conciliado agendas pesadas com exercícios de voz e incluíram em seus cardápios alimentos que diminuem a sobrecarga nas cordas vocais. A fonoaudióloga Gladys Gonçalves, diretora da Acessory - empresa de consultoria de voz -, endossa a estratégia dos presidenciáveis. De acordo com ela, uma alimentação saudável e o alongamento regular dos músculos vocais melhoram a qualidade da voz e aumentam a fluência da fala. "São recomendações importantes que fazem a diferença", explica.

 

Com uma rotina de cerca de quatro viagens por semana, o candidato do PSDB, José Serra, enfrentou mais de uma vez problemas com a voz durante a campanha. Nesta semana, em mensagem pela rede de microblogs Twitter, o presidenciável reconheceu que o excesso de uso voltou a prejudicar as suas cordas vocais. Em maio, durante a pré-campanha, o tucano engasgou três vezes durante uma entrevista de seis minutos. O acesso de tosse só foi interrompido quando um assessor lhe deu um copo da água. "Preciso muito mais da voz do que do pé para fazer campanha", disse na ocasião. O tucano revelou que é adepto do mel e da água mineral para se hidratar.

 

O presidenciável do PSDB também faz uso de chás variados e de um pó japonês (uma espécie de um anti-histamínico), que lhe foi recomendado pelo seu acupunturista. O composto é usado para aliviar sintomas de alergias, rinite e gripe. Serra também evita bebidas geladas e a exposição ao ar-condicionado. Na entrevista concedida em maio, disse que começaria a consumir mais maçãs, por recomendação dos jornalistas. A fonoaudióloga Gladys Gonçalves explica que a água mineral é excelente para hidratar e lubrificar as cordas vocais. A especialista observa ainda que o mel e alguns chás são alternativas muito recorrentes na cultura popular, mas que não geram grandes impactos na voz.

 

Outra candidata adepta de componentes para aliviar o esforço das cordas vocais é a petista Dilma Rousseff. A presidenciável carrega a tiracolo balas de gengibre e soro fisiológico para evitar que a voz lhe deixe na mão. Antes dos eventos, durante o trajeto de carro ou avião, costuma descansar a voz e fazer exercícios recomendados por sua fonoaudióloga. A petista visita a fonoaudióloga, que atua em Brasília, quando apresenta problemas na voz, como já aconteceu nas duas vezes em que ficou rouca durante a campanha. Dilma costuma utilizar também spray de hidratação e beber bastante água.

 

A maior vítima do problema de rouquidão entre os presidenciáveis é a candidata Marina Silva, do PV. Em abril, a senadora sofreu uma inflamação na laringe e no mês seguinte teve de se ausentar por cerca de uma semana por conta do problema, cancelando uma viagem que faria a Porto Alegre. No lançamento de sua pré-candidatura, no Rio de Janeiro, chegou a brincar com o assunto. "Dizem que minha campanha tem que ser viral, concordamos plenamente, mas não precisa ser viral na garganta." Desde então, a candidata frequenta duas vezes por semana, quando está em São Paulo, o consultório da fonoaudióloga Leny Kyrillos, na Vila Madalena.

 

A profissional conta que a candidata segue à risca os exercícios recomendados durante as consultas, discriminados em uma apostila que lhe foi entregue pela fonoaudióloga. "Ela está usando de maneira correta a voz, articulando mais a boca e aquecendo as cordas vocais antes dos discursos." De acordo com Kyrillos, o interesse em procurar ajuda de um profissional partiu da própria Marina. Segundo a fonoaudióloga, a candidata é uma aluna bastante aplicada, que coloca em prática as técnicas aprendidas.

 

Antes e Depois

 

A Agência Estado apresentou ao fonoaudiólogo Leonardo Lopes, especialista em voz e estudioso da fala de políticos, vídeos das candidatas Dilma e Marina antes e depois da campanha. O objetivo da reportagem foi analisar de que forma as sessões de fonoaudiologia e, eventualmente, cursos de consultoria de imagem modificaram a forma das candidatas verbalizarem. O presidenciável José Serra não passou pela análise porque não frequenta fonoaudiólogos e porque não conta com o auxílio de um consultor de imagem. A seguir, confira os comentários do especialista:

 

Dilma - "Houve muitas mudanças na Dilma. Durante a campanha, ela parece ter sido mais treinada, com um controle maior da voz. Nitidamente, a candidata gesticula mais e abre mais a boca para falar. Ela pronuncia melhor os fonemas e de forma mais precisa, principalmente o 'R'. A sua voz também está mais leve, e não tão agressiva como antes. Antes, ela falava num tom mais alto do que pedia a situação. A candidata também tem explorado melhor as pausas e ênfases, explorando a afetividade."

 

Marina - "Na fala da Marina, eu não vi muitas mudanças. Em termos técnicos, a candidata tem utilizado uma comunicação mais enfática, com mais pausas e de forma mais relaxada. Têm evidenciado e dado mais força a alguns termos, além de explorar melhor a respiração. O que percebi de diferente é que a voz dela está mais grave, menos infantilizada. A pronúncia das palavras está também mais precisa e mais marcada."

 

Dicas dos especialistas para quem está em campanha:

 

Maçã: A fonoaudióloga Gladys Gonçalves destaca que a maçã é o melhor alimento para ser ingerido antes de discursos. Além da mastigação da fruta exercitar os músculos bucais, soltando a musculatura, ela apresenta uma substância chamada pectina, que age como um adstringente. O fonoaudiólogo Leonardo Lopes, especialista em voz, também observa que uma alimentação rica em legumes e fibras ajuda na qualidade da voz. Ele observa ainda que o ar-condicionado prejudica a voz, por causar o ressecamento das cordas vocais. O especialista recomenda que, em locais onde o aparato seja necessário, os candidatos levem consigo uma garrafa d'água.

 

Exercícios: Tanto Gladys Gonçalves como Leonardo Lopes recomendam aos candidatos que estimulem as cordas vocais com exercícios regulares, para aumentar a resistência e flexibilidade das cordas. De acordo com eles, os exercícios mais eficazes são os de coordenação da respiração e movimentação de maxilar. A fonoaudióloga recomenda ainda alongamentos na região do pescoço e ombros. "Eles ajudam bastante na produção de um fluxo de som melhor." Quanto à utilização das balas de gengibre, Lopes observa que elas agem na faringe, e não na laringe, onde é produzido o som. "Não é um hábito que modificará ou ajudará na voz da candidata", explica.

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