''Candidato do Brasil à Unesco é inviável''

Para ele, uma saída para Brasília seria aceitar que outros lancem o brasileiro Barbosa, ainda que continue fiel a Hosni

Entrevista com

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

Para o ex-embaixador do Brasil em Washington, Roberto Abdenur, "está claro, a esta altura, que a candidatura do egípcio Farouk Hosny à direção-geral da Unesco é inviável". Na Europa, na Ásia e até entre países árabes há resistências ao seu nome, diz ele, "e ao que se sabe a secretária de Estado Hillary Clinton já manifestou ao governo egípcio a oposição da Casa Branca a essa candidatura". Mas Abdenur, com a longa experiência também de titular nas embaixadas brasileiras de Berlim, Viena e Pequim, acredita que há uma saída para o fato de o Itamaraty apoiar o egípcio justamente contra um nome brasileiro de grande aceitação, o de Marcio Barbosa. "Compreende-se que o governo não deseje recuar de seu compromisso com os árabes. Mas essa postura não precisaria implicar oposição à candidatura de Barbosa, que poderia ser formalizada por outros países". Se a diplomacia brasileira aceitar essa possibilidade até quinta-feira que vem, quando termina o prazo das candidaturas, os dois nomes, diz o embaixador, podem caminhar lado a lado, com outros candidatos. "E até setembro, na eleição, é altamente provável que a pretensão egípcia caia pelo caminho. Poderá o Brasil, então, sem prejuízos diante do mundo árabe, fazer a opção que lhe pareça conveniente." O Brasil se colocou em situação difícil ao se definir pelo egípcio Farouk Hosny para a direção-geral da Unesco - um nome que muita gente rejeita. Como vê esse episódio?O anúncio do apoio brasileiro reduziu, em alguma medida, os ânimos de muitos que, desde cedo, iam se alinhando com Marcio Barbosa. Mas está claro, a esta altura, que a candidatura de Hosny é inviável. Salvo a hipótese de um recuo desde logo por parte do governo egípcio, ela será oficializada até dia 30. E com ela virão outras, da Bulgária, Grécia, Noruega, Rússia e talvez de um ou dois outros árabes. Algumas delas surgiram apenas para tolher os passos de um nome indesejável, o de Hosny. Ele acaba de sofrer também um ataque de intelectuais de prestígio, como Bernard Henri-Lévy e Elie Wiesel. Que apoios ele tem? A pressão excessiva do governo do Egito em defesa de seu ministro gerou resistências dentro do próprio mundo árabe e há críticas a Hosny mesmo entre segmentos da opinião pública egípcia. Do mesmo modo, entre governos da África subsaariana. Tem forte oposição entre países asiáticos e europeus. É rejeitado por Nicolas Sarkozy, na França, e pelos EUA, oposição que a própria Hillary Clinton teria transmitido pessoalmente ao presidente Mubarak. E, como você mencionou, é significativo que um dos jornais mais influentes da Europa, Le Monde, o tenha criticado como criticou.A diplomacia brasileira errou? O sr. acha que seria melhor ela voltar atrás do apoio prometido?Compreende-se que o governo não deseje recuar do apoio que lhe deu. Mas essa postura não teria por que implicar oposição à formalização da candidatura de Barbosa por um grupo de países a ele simpáticos - como é possível pelos regulamentos da Unesco. O importante é que, até o final do mês, Barbosa possa ser incluído entre os candidatos. Outros organismos multilaterais da ONU já fizeram isso. Lembro que ElBaradei, em sua primeira eleição à direção da Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA, foi eleito mesmo sem apoio de seu país - que, no caso, era o próprio Egito. Por que o Itamaraty faria isso? É que o prazo para candidaturas termina dia 30, mas a eleição só acontece em setembro. Com o desenrolar da competição, seguramente cairá pelo caminho a pretensão de Hosny. Poderá então o Brasil, sem prejuízo em termos de seu gesto diante do mundo árabe, fazer outra opção que lhe pareça conveniente. Talvez a do próprio brasileiro. Que garantias há de que se o Brasil mudar Barbosa será o vencedor? Sua candidatura estava bem encaminhada até semanas atrás. Ele estava próximo de obter os 30 votos, de um total de 58, necessários à sua votação. E cabe esclarecer que estão descartadas as candidaturas de países da Europa, EUA, Ásia e África. Valem nomes da Europa Leste, dos árabes, America Latina e Caribe. E Barbosa, como segundo homem na hierarquia da Unesco, tem apoio do seu chefe, o japonês Koichiro Matsuuda. Poderia citar 20 a 30 países que já estão inclinados a confirmá-lo. Se o Brasil não alterar sua decisão, que garantias há de que ele possa no futuro fazer outro diretor nesse posto? Minha impressão é que, se Barbosa, que desfruta hoje de situação tão privilegiada por sua popularidade nos meios da organização, não for eleito agora, numa eleição futura, daqui a alguns anos, vai ficar difícil fazermos um diretor-geral na Unesco. Até porque, nessas novas oportunidades, outros países latino-americanos pretenderão ter sua chance e apoiar novamente um nome brasileiro seria menos provável.

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