'Candango tem sotaque sem traços estereotipados e se apropria de tudo'

Radicada na capital federal há 35 anos, professora acredita que a cidade não privilegia a fala de nenhuma região

Rafael Moraes Moura, de O Estado de S.Paulo

21 Abril 2010 | 00h01

Qual é o sotaque de Brasília? Para a professora Ana Maria de Moraes Vellasco, é uma mistura do mineiro com o goiano, trazendo nuances do Nordeste. Stella Maris Bortoni-Ricardo acredita que o brasiliense está criando uma forma própria de falar, "sem traços estereotipados". Sem, portanto, o "S" chiado do carioca, o "R" retroflexo do interior de Minas ou o "E" aberto de nordestinos. Radicada na capital federal há 35 anos, Stella acredita que a cidade não privilegia a fala de nenhuma região. "Brasília não rejeita as raízes brasileiras. Ela só não se associa a apenas um grupo, se apropria de tudo." Stella Bortoni, professora da Universidade de Brasília (UnB), acaba de organizar o livro Falar candango, compilação de artigos escritos por ela, Ana Vellasco e outros pesquisadores sobre o tema.

 

Formada por pessoas de todos os cantos do País, Brasília já possui uma forma própria de falar?

Estamos no começo desse processo. Hoje, a consolidação de certos modos de falar, principalmente daquilo que a gente chama de sotaque, é mais lento. Brasília é uma cidade constituída por brasileiros de todos os Estados, há alguns que são mais pródigos em mandar seus habitantes pra cá, como Minas, Goiás e os Estados do Nordeste, tomados como um todo. Num primeiro momento houve muita gente vinda do Rio de Janeiro. Temos também uma população flutuante que assume cargos a cada governo.

 

Brasília é um denominador comum do português brasileiro?

De modo geral, todos que paramos em Brasília tínhamos o propósito de conseguir melhores condições de vida. Um fenômeno interessante é o dos casamentos. Aqui é comum que matrimônios sejam mistos, no sentido de um dos membros do casal vir de um lugar, diferente do Estado do outro. Os filhos já nascem convivendo com pais de sotaques diversos. Existem estudos em linguística que mostram que, após contato com diferentes falares, a tendência é as características mais típicas ficarem de lado. São características típicas, fortes e que tecnicamente chamamos de estereótipos, o "R" forte do interior de Minas, o "S" do carioca, o "E" aberto dos nordestinos. Quanto mais saliente, perceptível, quanto mais estereotipado, mais facilmente vai ser perdido ou suavizado. Às vezes nem nos damos conta que estamos mudando o modo de falar, mas estamos.

 

O seu sotaque mineiro, por exemplo...

Já perdi, né? (risos) Quando vou para Minas, ele volta, mas o percebo mais na minha irmã que mora lá. Em momentos que estou sob muita pressão, recupero o meu modo de falar, sem premeditar, é espontâneo.

 

O brasiliense teria um sotaque sem sotaque?

É um sotaque sem traços estereotipados, e essa forma de falar se assemelha muito ao português falado pelos âncoras dos telejornais de âmbito nacional.

 

A palavra candango tinha certo sentido pejorativo. Como explicar que tenha se tornado termo definidor da identidade brasiliense?

A palavra começou a ser usada para definir pessoa de baixa escolaridade, que tinha profissão manual. Só eram chamados de candangos os operários da construção civil. Houve quem achasse que o nome do livro (Falar candango) pudesse estigmatizar a cidade, mas muitas coisas recebem esse nome. Na UnB, temos o Auditório Dois Candangos, em homenagem aos dois operários que morreram nas obras. Há a escultura Os Candangos, na Praça dos Três Poderes, o Instituto Candango de Solidariedade, a Candangolândia. Pra mim, é um termo bonito, carinhoso. Esses indicadores de identidade servem para marcar nós e os outros. Os paulistas são paulistas, os cariocas são os cariocas. E nós brasilienses, os candangos.

 

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