Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Campo de Santana, a área onde a República veio à luz na antiga capital

Espaço no então epicentro do Rio de Janeiro foi palco da Proclamação há 130 anos

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

RIO – Sem ar e meio sem querer, o marechal Deodoro da Fonseca, então comandante do Exército, deu início à Proclamação da República há 130 anos. Estava doente, de pijama, quando o convocaram para a missão. Foi no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, o epicentro da antiga capital – e, portanto, do País. Da casa em que morava, ao lado da praça, foi de carruagem, puxada a cavalo, ao encontro de militares revoltosos que estavam reunidos onde hoje fica a Companhia Estadual de Gás, a cerca de 650 metros.

Partiram, então, para o Quartel General do Exército (hoje Comando Militar do Leste), distante 550 metros. Ali se reunia o gabinete ministerial que representava a Corte, liderado pelo primeiro-ministro Afonso Celso de Assis Figueiredo, o visconde de Ouro Preto. Todos foram presos.

Deodoro não era um republicano convicto, militante. Militar de 62 anos de idade à época, cultivara uma forte relação com o Império. Comandou tropas na Guerra do Paraguai e era querido pelo imperador d. Pedro II e por monarquistas.

“Ele serviu muitos anos ao Império, então não conseguiu fazer essa ruptura que os jovens coronéis e os capitães fizeram com mais facilidade”, diz o historiador Nireu Cavalcanti. “Mas ele tinha uma característica que os republicanos também tinham: era um abolicionista.” 

Sancionada em maio do ano anterior, 1888, a Lei Áurea foi primordial para os anseios republicanos. Uma vez abolida a escravatura, derrubar o Império era visto como um passo natural. A chamada Questão Militar, uma série de insatisfações dos militares no contexto pós-Guerra do Paraguai, também fez com que crescesse no Exército o desejo de derrubar o Império – ou, pelo menos, o gabinete que o representava naquele momento.

Especialista em história militar, o coronel e historiador Antonio Ferreira Sobrinho ressalta que todos esses fatores – a Questão Militar, a abolição e o “panorama econômico” – foram mais decisivos para convencer Deodoro do que os ideais. A principal figura para cooptá-lo, diz, foi o também militar Benjamin Constant Botelho de Magalhães, republicano dos mais entusiasmados.

“Benjamin Constant encarnava essa situação da ala mais jovem do Exército. Além de ser um republicano por natureza, era positivista. Tinha, vamos dizer assim, uma visão diferente da que estava vigente na época. Ele consegue trazer Deodoro para o lado dos republicanos”, diz o coronel Ferreira. Segundo ele, os republicanos até podiam dar o golpe por conta própria, sem o beneplácito do comandante do Exército. A fim de evitar quebra de hierarquia, contudo, convocam Deodoro para dar mais legitimidade ao movimento. 

Além de Constant, outras figuras são centrais para compreender a Proclamação e o início da República. Do âmbito civil, Rui Barbosa talvez seja hoje a face mais conhecida do republicanismo. Já de dentro do governo, outro marechal, Floriano Peixoto, também tem papel crucial. Como ministro da Guerra do último gabinete do Império, facilitou a ascensão da República e dela virou um adepto. 

Esses dois nomes, inclusive, antagonizaram dali a alguns anos, o que expõe a diversidade daquela espécie de concertação de 1889.

Quando Floriano vira presidente – o primeiro após Deodoro, em 1891–, radicaliza e decreta estado de sítio. Tomou a iniciativa depois de ter tentado restabelecer a ordem republicana em oposição a outro estado de sítio, decretado pelo antecessor. O período de Deodoro e Floriano, na prática uma ditadura militar republicana, ficou conhecida como República da Espada.

Rui Barbosa, profissional do direito, entra com habeas corpus paradigmático em favor de congressistas e outros cidadãos que haviam sido indiciados e presos por supostamente conspirar contra o governo. Apesar de negado por dez votos a um, o HC 300 é tido como um marco desse instrumento jurídico e da defesa dos direitos constitucionais. 

Não demorou muito, uma vez erigida a República, para que houvesse o rompimento entre as diferentes alas que apoiaram a derrubada do Império.

“Depois da Proclamação, Deodoro rompe com Constant, porque Constant colide com aquilo que ele pensava a respeito do Exército. Constant apresenta a proposta de um Exército mais voltado para o bacharelismo, o conhecimento científico. Para a paz. Contrariava a crença do proclamador da República”, diz o coronel Ferreira. 

Campo de Santana

Assim nomeado por causa da antiga Igreja de Sant’Ana, localizada na área em que hoje é a Central do Brasil, o Campo de Santana era onde as coisas aconteciam na cidade, que ainda estava longe da expansão que se deu no século 20. Antes da Proclamação da República, a praça – que era maior que a atual – sediou festas e comemorações políticas e militares.

Ali, dom Pedro I foi aclamado imperador, dando ao local o nome de Campo da Aclamação. A Guerra do Paraguai, episódio importante para o desgaste do Império e o crescimento do ideário republicano, também acarretou celebrações na praça. 

Na região, houve a construção de diversos edifícios cruciais para o Poder. Entre eles o Palácio do Conde dos Arcos, sede da Faculdade Nacional de Direito, que por cerca de um século abrigou o Senado. Em 1811, ergueu-se ali o Quartel-General do Exército, no espaço em que hoje está o imponente Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste. 

Também no entorno da praça subiram a Casa da Moeda (atual Arquivo Nacional), a Prefeitura, a antiga Câmara dos Vereadores e a casa em que morou Deodoro, que pertencia ao Exército e servia de residência para seu comandante. Outro palácio fundamental para a República que se instalava é o do Itamaraty. Foi sede do governo republicano até 1898 e depois, até 1970, sediou o Ministério das Relações Exteriores. 

“Quando se fez a independência, em 1822, o campo era consagrado como o espaço da festa, pelas dimensões. Então os republicanos e os abolicionistas usaram de uma forma muito intensa o Campo de Santana”, conta Nireu Cavalcanti, que também é arquiteto. 

O campo hoje tem as ruas do seu entorno batizadas de Praça da República. Um monumento a Benjamin Constant se destaca entre as construções que estão dentro da área verde. O local, porém, está longe de ser um espaço visitado pelos cariocas com o intuito de resgatar a memória da República. É mais conhecido pelo abandono. Cutias, gatos e outros animais de espécies variadas estão por toda parte. Os lagos são mal cuidados, assim como os bancos e monumentos, alguns deles pichados. É comum ver população em situação de rua dormindo no gramado.

Apesar de ter cerca de 155 mil metros quadrados atualmente, a praça já foi maior. A construção da Avenida Presidente Vargas, na década de 1940, simbolizou a imagem de “progresso” que o Estado Novo tentava passar. Para que a via pudesse cortar o Centro da cidade, foi amputada antes uma parte considerável da área verde. Foi criada assim uma divisão entre o que restou dela e os atuais prédios da Central do Brasil e do Palácio Duque de Caxias, na frente do qual foi construído um jardim.  

Um roteiro da Proclamação da República no Rio 

1) Casa Histórica de Deodoro (onde morava o marechal)

Praça da República, 197 - Centro 

2) Campo de Santana (ex-Campo da Aclamação)

Praça da República, sem número - Centro 

3) Comando Militar do Leste (constituído onde ficava o Comando do Exército no Império)

Praça Duque de Caxias, 25 - Centro 

4) Palácio do Itamaraty (sede do governo republicano de 1889 a 1898)

Avenida Marechal Floriano, 196 - Centro 

5) Quinta da Boa Vista (onde ficava o Palácio de São Cristóvão, sede do Museu Nacional destruído por um incêndio em 2018; ali era a residência do imperador e funcionou a Constituinte de 1891).

Avenida Pedro II, s/número - São Cristóvão (o Palácio está em obras) 

6) Museu Casa de Benjamin Constant (antiga residência do militar positivista, está fechada para visitação)

Rua Monte Alegre, 255 - Santa Teresa 

7) Igreja Positivista do Brasil (centro de difusão do positivismo)

Rua Benjamin Constant, 74 - Glória

(Atualmente fechada para visitas)

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