Campanha da Fraternidade abordará projeto do São Francisco

Lideranças da Igreja Católica, representantes de movimentos sociais e ambientalistas aproveitaram o lançamento oficial da Campanha da Fraternidade deste ano em Belo Horizonte para reforçar o coro contra o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco. O tema da campanha deste ano é a Amazônia.O arcebispo metropolitano da capital mineira, d. Walmor Oliveira de Azevedo pediu uma maior participação dos governadores de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), e da Bahia, Jaques Wagner (PT), no debate. "Esperamos nessa discussão e nesse encaminhamento a respeito do Rio São Francisco que os nossos governadores, especialmente Bahia e Minas Gerais, possam ter uma posição nessa perspectiva de fortalecer o quanto é necessário revitalizar o São Francisco. Nós contamos com isso", disse d. Walmor.Conforme o arcebispo, o tema da campanha em 2007 abre espaço para a retomada do assunto. "Somos contrários à transposição do Rio São Francisco, porque precisa para isso preceder a sua revitalização", reiterou. "Estamos pedindo e apelando ao governo federal para que não comece a aplicação de nenhum projeto antes de uma discussão ampla, democrática, com demonstrações técnicas. E nós precisamos, portanto, que toda a população participe, opine, de modo que possamos formar um consenso". Comunidades ribeirinhasMais enfático, o coordenador-geral da ONG Projeto Manuelzão, Apolo Heringer Lisboa, atacou o disposição do governo Lula, afirmando que a transposição vai prejudicar o desenvolvimento das comunidades ribeirinhas em Minas e na Bahia. Segundo Lisboa, a eventual outorga limitará o uso da água. "Com essas mudanças de clima, ninguém pode garantir que o São Francisco vai ter água", disse o ambientalista. "Quem conhece o São Francisco já viu que ele só tem muita água na época da chuva, depois fica muito fraquinho".Sem tréguaPresente no ato, o ex-presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e membro da Associação Brasileira de Reforma Agrária, Marcelo Resende, afirmou que os movimentos sociais não deverão dar trégua ao governo. Segundo ele, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e diversas entidades programam para o segundo semestre, em Belo Horizonte, "uma grande romaria da terra e das águas", quando esperam reunir nas ruas da capital mineira cerca de 10 mil pessoas para discutir a transposição do São Francisco e a reforma agrária. Para o arcebispo metropolitano, as populações das áreas de influência do rio não podem correr o risco de pagar "um alto preço" pelo açodamento do governo federal. D. Walmor aprovou o gesto do bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, que em Brasília nesta quinta protocolou carta cobrando a retomada das discussões. "Estamos pedindo o diálogo, pedindo que o governo federal leve em conta e considere aquilo que prometeu", disse, salientando que é contra uma nova greve de fome de Cappio. "Numa sociedade democrática e participativa não precisamos chegar a extremos, mas de fazer aquilo que é necessário e importante, que é o diálogo".TransposiçãoO projeto de transposição das águas do Rio São Francisco foi anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde o primeiro mandato e tem sido alvo de disputas judiciais, principalmente entre governo e entidades ambientalistas. Em resumo, o objetivo é conectar a bacia do São Francisco a regiões com déficit hídrico. Para tanto, serão construídos 720 quilômetros de canais.Em 2005, o bispo de Barra, na Bahia, Luís Flávio Cappio ficou conhecido no País por ficar 11 dias em greve de fome contra as mudanças no curso do rio. A atitude constrangeu Lula, que recebeu o religioso dois meses depois, mas não interrompeu o projeto de transposição do Velho Chico.O anúncio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 22 de janeiro deste ano, retoma a discussão sobre o assunto. A obra é uma das prioridades do programa, que tem por objetivo destravar a economia com investimentos em infra-estrutura, e deverá receber R$ 4,5 bilhões até 2010.

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