TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Camisas sob medida para os políticos

Tucanos são clientes dos irmãos Villaescusa; Ricardo Almeida já trabalhou com Doria e Lula

Adriana Ferraz e Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2017 | 05h00

O que Geraldo Alckmin, Fernando Henrique Cardoso, João Doria, José Serra, Luiz Felipe d’Ávilla e Aloysio Nunes têm em comum? Não, não é o partido. Ou pelo menos não é só o PSDB. Todos esses tucanos fazem ou já fizeram camisas para enfrentar campanhas eleitorais no mesmo ateliê da Rua Cravinhos, nos Jardins, e com os mesmos camiseiros, os irmãos Augusto, Monica e Nuria Villaescusa. Há 47 anos, a marca criada pelo pai do trio produz camisas sob medida e com o monograma de cada um bordado no bolso.

Nos arquivos do ateliê, 24 mil moldes de camisas lotam as paredes do escritório da Augusto Camiseiro. A cada encomenda as medidas são conferidas antes de uma nova peça ser produzida. No caso dos políticos, o trabalho, geralmente, é só o de checar se o cliente emagreceu ou engordou porque os modelos geralmente são os clássicos, assim como as cores.

O governador de São Paulo, por exemplo, dificilmente sai de lá com uma sacola que não contenha peças claras e com as iniciais G.A. bordadas no bolso esquerdo. A conta? R$ 420 a unidade, desde que feita com tecido nacional.

“Ele é rápido, decidido. Faz encomendas pequenas, duas brancas, duas azuis, geralmente, e com tecido mais encorpado, para durar bastante. De vez em quando, escolhe uma mostra xadrez, desde que com quadrados grandes”, conta Augusto, o filho, que conquistou Alckmin como cliente por indicação de outro tucano, João Doria, na época ainda apenas apresentador de TV. “Além de encomendar camisas, Doria ainda usa o nosso serviço de conserto. Pode não parecer, mas ele economiza, troca colarinho e punho para recuperar as peças. Dependendo do estado delas, dá para usar por mais um ano ou dois.”

Mas, diferentemente de Alckmin, Serra ou do ex-tucano Andrea Matarazzo (hoje no PSD), o prefeito não é tão fiel assim aos irmãos. Amante da moda, também já trabalhou com Ricardo Almeida, o alfaiate dos famosos. “O Doria eu atendo antes mesmo que ele se tornasse político”, diz Almeida.

Iniciais. Ao contrário dos irmãos Villaescusa, Ricardo Almeida não é muito adepto dos monogramas, as tais iniciais bordadas. “Ao mesmo tempo que passa uma ideia de tradição, pode indicar também uma ideia de coisa velha. Acho que é algo difícil de fazer e o resultado não é muito bom”, explica. 

O alfaiate faz ternos sob medida, com atendimento personalizado, que podem custar até R$ 17 mil. Ternos feitos por sua equipe saem por menos da metade do preço e os pré-prontos são encontrados em lojas próprias e autorizadas por R$ 3 mil. 

“Por isso, às vezes, vejo um político vestindo um terno meu, mas não, necessariamente, tive contato com ele”, conta. Almeida não gosta de falar de seus clientes, mas confirma que já fez ternos para o já citado João Doria, o senador Aécio Neves e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aliás, Lula é um caso bem peculiar...

Durante a campanha em que levou Lula à Presidência pela primeira vez (2002), o marqueteiro Duda Mendonça procurou Almeida para uma missão urgente. “Duda chegou para mim e disse que Lula estava tendo problemas com o eleitorado feminino. E que se ele tivesse uma aparência menos rústica e cativante poderiam até votar nele”, relata o alfaiate. 

Almeida cuidou de todo o guarda-roupa do candidato do PT que chegaria ao Planalto. “Mas nunca mais trabalharia para ele. Lula me decepcionou muito. Sei que ele não é o único político envolvido em denúncias de corrupção, mas existia muita expectativa de que com ele seria diferente”, diz o alfaiate. “Mesmo minha família sendo tucana, eu aceitei trabalhar com Lula na época. Acreditei no trabalho.”

Almeida, agora, prefere analisar as próximas eleições do ponto de vista estético, e dar dicas de como um político pode aparecer bem para o seu eleitorado. “Político tem que estar bem vestido, mas não muito arrumadinho. O eleitor das classes C e D não se identifica. E os políticos podem acabar se distanciando dessas classes”, diz o especialista. “Acho que o melhor é usar ternos azuis, ou azul-marinho. Cinza, grafite e preto também são bons. O xadrez seria muito ousado. As camisas? Camisas sempre brancas! Passam um ar de lisura. No máximo cabe um detalhe que chame atenção, como uma gravata diferente ou um colarinho mais alto.”

Colarinho. Na Augusto Camiseiro, nome da marca da família Villaescusa, os colarinhos têm espaço especial. Quem chega ao ateliê pode escolher dentre mais de uma dezena de modelos. Um deles já ficou conhecido como “colarinho Doria”, no estilo do príncipe Charles, mais alto, aberto e com dois botões. 

Às vésperas do ano eleitoral, os pedidos começam a aumentar. “Pessoal costuma vir mais nesta época. Alckmin passou a vir até aos sábados, quando a loja está cheia. Parece até que a campanha já começou”, diz Monica. Ela e os irmãos já tiraram medidas do governador no Palácio dos Bandeirantes. Na ocasião, Alckmin não queria aparecer. Agora, o cenário é outro. “Ele vem e faz até piada.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.