Câmara negocia folha de pagamento para bancar shopping

Valor da transação com Banco do Brasil e Caixa pode ultrapassar a cifra de R$ 300 mi de salários dos 16 mil servidores

DANIEL CARVALHO , MURILO RODRIGUES ALVES , BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

04 de março de 2015 | 02h04

A Câmara dos Deputados negocia com o Banco do Brasil e com a Caixa Econômica Federal a folha de pagamento dos 16 mil servidores da Casa, adquirida pelas duas instituições financeiras em 2008 por R$ 220 milhões. Esse valor, atualizado, chega a mais de R$ 300 milhões, graças à inflação e ao rendimento da aplicação.

A transação visa reforçar o caixa da Casa, que tem previsto construir seu anexo 5 - um complexo de três prédios com gabinetes, um plenário novo e um shopping center com orçamento estimado em R$ 1 bilhão.

O valor negociado atualmente para a venda da folha de pagamento ainda é mantido em sigilo, mas, segundo o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é "bem representativo" e "bem maior" que o de sete anos atrás.

"Não vamos perder a oportunidade de trazer esses recursos para a Câmara", disse Cunha, que participa diretamente da negociação com o Banco do Brasil. "Em economia ou em mercado, há sempre alguém querendo comprar, há sempre um chinelo velho para um pé cansado", afirmou o presidente. As negociações ainda estão no início.

Os dois bancos públicos têm interesse em manter a folha dos 513 deputados, 3.349 servidores concursados, 1.573 cargos de natureza especial e 10.732 secretários parlamentares da Câmara.

Senado. Em fevereiro, a Mesa Diretora do Senado vendeu a folha de pagamento dos parlamentares e funcionários da Casa para o Banco do Brasil e a Caixa por R$ 100 milhões. As duas instituições bancárias, que já administravam o pagamento desses salários, obtiveram o direito de gerenciar o serviço por mais cinco anos. O Senado ameaçou vender a folha de pagamento para os bancos privados, o que fez com que as instituições públicas aceitassem pagar mais do que tinham ofertado inicialmente.

Os bancos disputam as folhas de pagamentos de servidores públicos pela atratividade de ofertar crédito consignado a uma clientela de bons pagadores. Um deputado ganha, por mês, R$ 33,8 mil. Cada gabinete tem até R$ 78 mil mensais para os salários dos servidores. Para os concursados, a maior remuneração é de R$ 23 mil.

A Câmara aguarda ainda parecer do Tribunal de Contas da União (TCU) para saber se pode fazer automaticamente a renovação do contrato com o novo valor ou se será preciso realizar uma licitação.

Shopping. A ideia de Cunha é construir um shopping center próximo ao prédio do anexo 4 da Casa. O objetivo da construção é atrair a participação da iniciativa privada para financiar a obra do anexo 5, promessa de campanha do peemedebista quando disputou o comando da Câmara.

Segundo o deputado, o assunto ainda será debatido em reunião com a Mesa Diretora. Ele afirmou anteontem que é preciso esperar a publicação de uma proposta de manifestação de interesse - uma espécie de prévia do processo de participação da iniciativa privada - para avaliar a viabilidade do projeto.

O projeto do complexo do anexo 5 incluiria três prédios, um plenário novo e um shopping a serem construídos por meio de parceria público-privada. Cunha afirmou que sua intenção é não trazer mais despesas para a Câmara. "Ninguém vai fazer shopping com dinheiro público", declarou.

Um dos prédios vai ter estacionamento subterrâneo para os deputados e outro terá um plenário com 675 lugares.

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