Câmara mostra serviço para recuperar crédito com sociedade

Em duas semanas de trabalho, a nova Câmara dos Deputados mostrou índices de freqüência e produtividade raramente vistos, especialmente às vésperas do carnaval. Nesta quinta-feira, 15, por exemplo, 452 deputados, de um total de 513, compareceram ao plenário para votar dois projetos de lei sobre segurança pública e um terceiro sobre a distribuição do Fundo Partidário.Deputados experientes e novatos dizem que a Câmara estaria reagindo, dessa forma, a uma das maiores ondas de descrédito ao Legislativo já vistas, decorrente dos escândalos do mensalão e dos sanguessugas, da renúncia do ex-presidente Severino Cavalcanti e da crítica ao salário dos parlamentares. "Os deputados estão precisando mostrar serviço, mostrar sintonia com a agenda da sociedade", disse Jutahy Junior (PSDB-PA), veterano de cinco mandatos.Desde a primeira sessão de votações, em 6 de janeiro, foram aprovados cinco projetos de lei, inclusive o da Super-Receita, e três medidas provisórias. O comparecimento variou de 426 deputados, na segunda-feira, 12, a 484, na quarta, 14, quando se votou a lei para dobrar a pena de criminosos que aliciam menores."Acredito no inconsciente coletivo; ele está nos movendo para uma direção melhor. Se foi o lado ruim de Deus que se mostrou, agora veremos a parte correta", disse o costureiro Clodovil Hernandes (PTC-SP), novato na política. "Cheguei aqui pensando o demônio, mas já vi que não é assim, e que há muito espaço para trabalhar", disse Silvio Costa (PMN-PE) outro estreante. Corte de faltasO presidente Arlindo Chinaglia está abrindo as sessões rigorosamente no horário (às 11 horas ou às 16 horas) e só justifica faltas por doença ou missão externa a serviço da Câmara. Faltas são descontadas nos salários dos deputados e o excesso pode levar até à perda do mandato.O resultado tem sido o comparecimento recorde, verificado somente nos primeiros meses de 1995, quando o então presidente Luiz Eduardo Magalhães (morto em 2000) comandou a votação de cinco emendas constitucionais para abrir a economia no governo de Fernando Henrique Cardoso.Na última segunda-feira, Chinaglia deixou no meio uma solenidade oficial no Palácio do Planalto para abrir as votações da Super-Receita. Pediu desculpas e saiu antes do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "O Legislativo se afirma cumprindo seu papel, que é votar leis, fiscalizar o Executivo e vocalizar o sentimento da sociedade", afirmou Chinaglia.O ritmo de trabalho imposto pelo novo presidente é elogiado por adversários na recente eleição, que Chinaglia venceu com margem estreita sobre o antecessor, Aldo Rebello (PCdoB-SP). "Arlindo está conseguindo potencializar um ambiente novo, de muita disposição para votar", comentou Beto Albuquerque (PSB-RS), um dos articuladores de Aldo.ReclamaçõesJá há reclamações em relação ao ritmo das votações e à "prisão domiciliar" dos deputados, que não podem se ausentar do plenário para visitar os ministros, por exemplo, ou os eleitores, nos Estados mais distantes."A base sente e cobra a distância do deputado, mas acredito que nesse momento estão gostando de nos ver votar," disse Alceni Guerra (PFL-PR). "O ritmo do Arlindo é ótimo, ideal para quem não tem medo de trabalhar", disse o ex-prefeito Paulo Maluf (PP-SP).Ex-presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) elogia o esforço de votar, mas alerta que o resultado pode ser "apenas stress" se não houver um foco político definido na pauta de votações. "Os parlamentos mais produtivos de todos os tempos foram o Reichstag de Adolf Hitler e o Soviete Supremo de Josef Stalin", observou Ibsen.Arlindo Chinaglia decidiu montar a pauta com votações difíceis, como a da Super-Receita, ou que estejam no centro das discussões, como os projetos sobre segurança pública. Chinaglia dará uma folga aos deputados na semana do carnaval, mas retoma as votações na segunda, 26, pelas 19 medidas provisórias pendentes, incluindo as oito que compõem o PAC.

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