André Bueno/CMSP
André Bueno/CMSP

Câmara Municipal de São Paulo resgata memórias de ex-vereadores

Projeto relembra histórias da época da ditadura e momentos marcantes da cidade, como a CPI dos fiscais

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2022 | 05h00

Os 55 vereadores que hoje formam a Câmara Municipal de São Paulo podem discordar ideologicamente, mas têm, em comum, a certeza de que a eleição lhes assegurou o direito de tomar posse e a garantia do término do mandato. A história, porém, mostra que nem sempre foi assim. Entre 1937 e 1969, as ditaduras militar e de Getúlio Vargas, assim como a perseguição aos comunistas, promoveram a cassação de 42 parlamentares e limitaram a atuação de tantos outros.

Esse passado agora é resgatado pelo programa Vossa Excelência, a Memória, que dá voz a ex-vereadores e relata fatos que marcaram a política na capital. Lançado no ano passado, o projeto já ouviu 17 nomes que passaram pela Casa em momentos diferentes.

Com apenas 28 anos, o engenheiro João Carlos Meirelles, por exemplo, ocupou pela primeira vez o cargo em 1964, o ano do golpe militar. “Logo depois de assumir, ficou intolerável a ditadura me ouvir. Fazia críticas duras na tribuna e, por isso, fui preso três meses depois da posse, com minha esposa grávida de seis meses”, afirmou.

Ex-presidente da Câmara, Paulo Soares Cintra dividiu com Meirelles a luta democrática, mas foi obrigado pelos militares a presidir uma comissão de julgamento dos próprios funcionários da Casa que, eventualmente, se posicionassem contra o regime. “Foi muito complicado, a pressão era permanente”, disse.

As recordações são relatadas à jornalista Viviane Cezarino no plenário do Palácio Anchieta e veiculadas pela Rede Câmara SP. Com o apoio da Secretaria de Documentação, leis aprovadas durante os períodos citados também se tornam temas das conversas, como o projeto que criou a Rua Vladimir Herzog, em homenagem ao jornalista assassinado pelos militares em 1975.

Placa

"O tema era tabu. Vivia-se um clima de muita tensão, mas tinha me comprometido a colocar o meu mandato a serviço da democracia. O prefeito vetou, mas nós derrubamos o veto. E, depois, ainda tive de mandar fazer a placa porque a Prefeitura não faria. Foi assim que a rua onde ficava a TV Cultura passou a se chamar Rua Vladimir Herzog”, relatou o ex-vereador Flávio Bierrenbach, que legislou entre 1977 e 1979 e foi autor da iniciativa.

As histórias relativas ao regime militar não são contadas só por quem atuou politicamente na época, mas também por vereadores que chegaram depois. Caso de Tereza Lajolo, que relatou a CPI criada após a descoberta da Vala de Perus e os 1.049 sacos com ossos humanos que havia lá dentro.

“Levamos o maior susto, ninguém sabia da existência da Vala de Perus. Quando a (então prefeita Luiza) Erundina foi informada, ela mandou cavucar, e nós investigamos”, disse Tereza, que teve como colegas nomes como Aldo Rebelo, primeiro “comunista” a virar vereador.

“Aquele mandato foi uma vitória para mim e para o partido (PCdoB)”, afirmou, em referência à perseguição que as siglas classificadas como comunistas sofreram durante e depois da ditadura militar.

Já o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo relatou como teve a carreira alavancada por uma decisão tomada na Câmara: a criação de uma CPI para apurar corrupção entre fiscais da Prefeitura. “Aquilo marcou minha vida porque foi uma CPI que passou a ser acompanhada pelas pessoas como uma novela. E não acabou em pizza.”

Idealizadora do projeto juntamente com o também jornalista Leandro Martins, Viviane considera que os bastidores das costuras políticas podem revelar muita coisa depois que o tempo passa. “É a história que está nas entrelinhas dos acordos políticos que buscamos mostrar e guardar para futuras análises.”

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