Câmara cancela exposição após polêmica com foto de Rogéria

Exposição mostrava travesti seminu; diretora da mostra diz que 'repudia atitude abusiva, ilegal e violenta' da Casa

08 de novembro de 2007 | 15h54

A exposição "Heróis", do fotógrafo Luiz Garrido, foi cancelada na Câmara dos Deputados, após uma polêmica em torno de foto do travesti Rogéria, que aparece seminu. Segundo a assessoria da Casa,  a diretora da exposição, Karla Osório, "evitou a todo o custo apresentar as fotos antes da exposição, como fora requisitado e a Câmara  foi 'surpreendida' com as fotos de Rogéria". Em nota, Karla "repudiou" a decisão do cancelamento e nega que a Câmara tenha feito solicitação prévia do material.   O impasse começou quando a chefe do setor de Relações Públicas da Câmara, Sílvia Mergulhão, pediu que a foto fosse retirada da exposição, que retrata personalidades que vão de tom Jobim a Lula.   Montagem com fotos de Luiz Garrido   Segundo Sílvia, a foto não poderia ser exposta, sob pena de a Câmara ser processada com base nos artigos 17 e 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que tratam da integridade física, psíquica e moral dos menores de idade.   A diretora do evento, Karla Osorio Netto, diz que "submeteu-se, juntamente com o artista, à exigência imposta pela Câmara, por meio da Sra. Silvia Mergulhão (Cerimonial) e do Sr. Goya (Espaço Cultural), tendo criado uma "cabine" para acolher a fotografia de Rogéria".   "Manifestamos nosso total repúdio à decisão da Direção da Câmara a qual esperamos seja revista, mantendo-se a exposição aberta ao público no Salão Negro do Congresso Nacional".   A exposição mostra retratos de personalidades que vão de Fernando Collor, Armando Falcão e Antonio Carlos Magalhães a Tom Jobim, Cauby Peixoto e o craque Didi, passando por Betinho, Zagallo e o presidente Lula fumando um charuto, envolto numa nuvem de fumaça.   Leia abaixo íntegra da nota da Câmara: Após esgotar todas as possibilidades de negociação com a diretora do evento "Foto Arte 2007 - Brasília: Capital da Fotografia", Karla Osorio Netto, e analisar todas as alternativas viáveis, a Diretoria-Geral da Câmara dos Deputados resolveu cancelar uma das três mostras de fotos que ocorrem nos espaços culturais da Casa nesta semana.   A exposição cancelada é a intitulada "Heróis", do fotografo Luiz Garrido e foi montada no Salão Negro nesta quarta-feira (7/11). A direção da Câmara entendeu que o Congresso Nacional não é o espaço apropriado para exposições que possam gerar constrangimentos de qualquer natureza. O Salão Negro é visitado diariamente por centenas de turistas, religiosos, professores e crianças - inclusive de estudantes da rede de ensino -, além da presença rotineira de autoridades e servidores.   A diretora da Foto Arte, ao contrário das normas que regem a utilização dos espaços de exposição na Câmara, não apresentou nenhuma fotografia ou material ilustrativo no documento que acompanhava a solicitação do espaço. Dessa forma, não houve condições técnicas de se fazer uma curadoria (seleção das obras) prévia para a adequação da referida exposição naquele salão. Em nenhum momento, a Câmara propôs censurar ou alterar, com tarjas, uma das imagens que apresentava um nu frontal de uma transexual.   A decisão levou em conta ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por ser incompatível com os artigos 17 e 18, que pregam o respeito à inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança, e que é dever de todos velar pela sua dignidade, pondo-as a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. Estatuto da Criança e do Adolescente   Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da  integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente,  abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia,  dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.   Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do  adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano,  violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.   Veja a íntegra da nota da diretora Karla Osório:   Acabamos de tomar conhecimento, por meio da imprensa, do cancelamento anunciado pela Câmara dos Deputados, da mostra de fotografias de Luiz Garrido "HERÓIS", integrante do Festival FOTO ARTE 2007, maior festival de fotografias do Brasil que se realiza em Brasília de outubro a janeiro de 2007.     Manifestamos nosso total repúdio à decisão da Direção da Câmara a qual esperamos seja revista, mantendo-se a exposição aberta ao público no Salão Negro do Congresso Nacional. Ressaltamos que a mostra constitui-se de 24 fotografias de brasileiros ilustres como Lula, Betinho, Gabeira, Oscar Niemeyer, Draúzio Varella, Rogéria e tantos outros, já tendo sido exibida em diversos outros espaços públicos federais no Brasil, como: Espaço Cultural do BNDES, Centro Cultural dos CORREIOS, Bienal de Curitiba, sem nunca ter causado polêmica, alegação de impropriedade  ou ofensa de qualquer ordem.   Toda polêmica foi gerada apenas pela fotografia da transexual Rogéria, cuja retirada foi imposta pelo Cerimonial da Casa, na manhã do dia 7, sob alegação de constrangimento e suposta ofensa aos artigos 17 e 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Apesar de discordarmos do argumento, a ele nos submetemos e aceitamos a exigência da Câmara de isolar a fotografia. Assim, ao contrário do afirmado na nota, a diretora do evento, Karla Osorio Netto, submeteu-se, juntamente com o artista, à exigência imposta pela Câmara, por meio da Sra Silvia Mergulhão (Cerimonial) e do Sr. Goya (Espaço Cultural), tendo criado uma "cabine" para acolher a fotografia de Rogéria, considerada "inadequada" pela casa, sob alegação de visitação de evangélicos e crianças". Foi, inclusive, feita uma placa indicando que a foto estava isolada por determinação da Câmara.     Assim, causa espanto e indignação, a atitude unilateral e excessiva da Câmara de cancelar a exposição alegando argumentos inverídicos e inaceitáveis como o descrito acima.     Sobre demais argumentos alegados são igualmente incabíveis, pois a mostra foi aprovada e consta de acordos feitos por meio escrito, verbal e por emails trocados com os responsáveis do Espaço Cultural e do Cerimonial que, inclusive, aprovaram o convite desta mostra específica, tendo colaborado na montagem desde o dia 1º. de novembro.   Ao contrário do alegado na Nota da Câmara, NUNCA foi exigido da organização do evento a submissão de todas as fotografias ou de material ilustrativo específico da mostra. O processo foi instruído e considerado válido e regular com fotografias variadas do evento.     Além disso, causa verdadeiro horror e repúdio total a decisão arbitrária e totalmente autoritária da Casa de desmontar e retirar a exposição na calada da noite, após abertura oficial ao público ocorrida na noite de ontem e registrada pela imprensa de todo país. E pior, de ter feito isto sem comunicar previamente aos organizadores e sem autorização de tocar no material, cujo manuseio somente pode ser feito por montadores habilitados, sob supervisão do artista e da equipe profissional capacitada do evento, tratando-se de patrimônio valioso e privado, cujo valor estimado de cada imagem é de R$ 2.000,00.   Finalmente, solicitamos à Câmara dos Deputados que seja reconstituída a mostra em seu devido lugar, cumprindo-se o acordo celebrado entre o FOTO ARTE e a Casa, sendo que a mesma deverá estar aberta ao público até o dia 18 de novembro próximo, sob pena de serem tomadas as medidas judiciais e extra-judiciais cabíveis, incluindo, se for o caso, indenização moral, material e perdas e danos.     Esperamos contar com uma decisão ponderada e responsável da "Casa do Povo" que deve ser sempre exemplo de implementação de democracia, diálogo, tolerância, direitos humanos, respeito às leis e acordos celebrados, sobretudo em atitudes tomadas por seus próprios funcionários e dirigentes.   Texto atualizado às 16h10

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