''''Calvário não é só dele, agora é nosso'''', reage Demóstenes

Oposição acha que todo o Senado vai pagar pela decisão de ontem e que Renan não pode ficar no cargo

Marcelo de Moraes e Ana Paula Scinocca, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 00h00

Inconformados com a absolvição de Renan Calheiros (PMDB-AL), os senadores que defendem sua cassação consideram que ele não terá mais condições políticas de continuar presidindo o Senado. Decepcionado com o resultado do julgamento, o grupo que votou contra Renan acha que o grande derrotado da sessão de ontem foi o próprio Senado como instituição.Para Demóstenes Torres (DEM-GO), todos os membros da Casa pagarão a conta pela absolvição de Renan perante a opinião pública. "O calvário agora não é só dele, é nosso", afirmou, qualificando o resultado como um desastre. "Foi o pior que poderia acontecer para a instituição. O Senado trocou a agonia de Renan por sua própria agonia e vai pagar por isso."O senador Renato Casagrande (PSB-ES), relator do caso ao lado de Marisa Serrano (PSDB-MS), concordou com a tese de Demóstenes e disse que o prejuízo para a imagem do Senado será imenso. Para ele, os senadores foram "arrogantes" ao votar pela absolvição de Renan. "O voto da maioria é soberano. Mas essa é uma soberania arrogante, porque se dissociou do pensamento da maioria da sociedade. Com isso, vai permanecer a crise. Ela vai se mudar para cá de vez e ficará acampada no Senado", disse.Para Marisa, o resultado provocou uma enorme sensação de frustração entre os defensores da perda de mandato. "Depois de tanto tempo, com a análise séria dos documentos que foram periciados pela Polícia Federal, não tinha como o Senado apresentar esse placar na votação", observou a senadora tucana. "Ele (Renan) disse no plenário que não havia provas contra ele, e isso não existe. Havia provas claras. Fica a frustração."Demóstenes também criticou o fato de seis parlamentares terem se esquivado de tomar posição em seu voto. "Seis senadores agiram como Pilatos, abstendo-se de votar. E a abstenção de Pilatos deu no que deu", afirmou. "A imagem do Senado ficou pior do que pau de galinheiro. Mas ele manteve o mandato por pouco tempo. Acho que vamos conseguir cassá-lo em mais alguns dias."FALÊNCIA E DEGENERAÇÃOLíder do PSDB, Arthur Virgílio (AM) viu a falência do Senado com o resultado de ontem. "O Senado acabou. Essa legislatura acabou. É de maneira triste que falo isso, mas é o fim", lamentou.O senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) também fez um prognóstico pessimista da imagem da Casa. "A população não tinha crédito no Senado e agora passa a ter menos ainda. É preciso estabelecer uma nova forma de convivência", defendeu. O presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), endossou a opinião dos colegas de partido e falou em "degeneração" do Senado.O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) emitiu nota para lamentar a decisão do plenário e fazer uma alerta: "O resultado da votação em plenário neste primeiro processo contra o presidente Renan Calheiros mostra que o impasse vai continuar, pois existem outras representações contra o senador. Tudo precisa ser apurado. Insisto que a maior quebra de decoro do presidente foi de se manter no cargo e utilizar a estrutura do Senado em seu benefício. Os problemas vão persistir e a paralisação dos trabalhos deve se manter, pois o presidente ficou enfraquecido. "Segundo Jarbas, o Senado rompeu sua sintonia com a maioria da população e com a opinião pública. "O Senado sai menor de todo esse episódio. Espero que os que inocentaram o presidente Renan tenham consciência do prejuízo que causaram à imagem do Parlamento brasileiro. Colocaram o interesse pessoal de um acima dos interesses da instituição", afirmou.Presidente do PSOL, partido que protocolou a representação contra Renan, a ex-senadora Heloísa Helena (AL) também lamentou o resultado. "Vou continuar a ensinar meus filhos que é proibido roubar", repetia, indignada.NOVA TENTATIVAPara o senador José Nery (PSOL-PA), é importante que os senadores se reorganizem para tentar aprovar no Conselho de Ética as outras representações contra Renan. "Essa sessão representou uma grande derrota da ética. Foi uma decisão vergonhosa para o Brasil. O Senado deu um mau exemplo à Nação, mas acreditamos que a luta ainda não acabou. Considerando a indignação da opinião pública com esse resultado e a pressão que existirá, acho que a luta se fortalecerá", disse.Há no entanto quem tema pelo sucesso das outras três representações que ainda precisam ser analisadas pelo Conselho de Ética. "O resultado desse julgamento obviamente fortalece Renan para as outras representações", avaliou Casagrande. "E, quando alguém se fortalece, é óbvio que o outro lado enfraquece. Num primeiro momento, temos de esperar para ver como agir agora."

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