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Caixinha de surpresas

Quem diria que um dia o PT reconheceria uma derrota sem jogar a culpa no colo do vizinho. A presidente Dilma Rousseff calçando as sandálias da humildade em público também é uma cena inédita.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2014 | 02h03

O efeito do fracasso retumbante em São Paulo, a inesperada votação de Aécio Neves, o desempenho nacional de Dilma aquém do previsto e o custo da falta de escrúpulos exibida nos ataques contra Marina Silva pode ser que dure pouco e essa suavidade toda seja mera estratégia de João Santana, que anuncia uma campanha sem ataques para os próximos dias.

Dissimula ou exagera, até porque a altercação é inerente ao embate. Só não precisa ser desleal nem de baixo calão. Seja como for o desenrolar, o início deste segundo turno mostra um PT desprevenido e um PSDB revigorado. De maneira surpreendente para um partido que não se notabiliza pelo vigor na hora da luta e que teria jogado a toalha não fosse a persistência do candidato.

O resultado deu o primeiro lugar ao PT e, em tese, isso deveria dar gás ao partido uma vez que, historicamente, não se tem notícia de viradas no segundo turno; quem ganhou no primeiro até hoje levou a taça na final. Ocorre que esta eleição está desmentindo antigas escritas.

Uma delas: a vitória mais do que certa de Aécio Neves em Minas Gerais. Há várias explicações para o revés: o tucano descuidou da terra natal, achou que ganharia por gravidade, errou na escolha do candidato a governador e até mesmo houve confusão no eleitorado porque o petista Fernando Pimentel até outro dia mesmo era um aliado de Aécio.

Mas não interessa, perdeu. Para sorte dele, o PT perdeu tão feio em São Paulo, Pernambuco (terra de Lula) e teve baixas importantes no Congresso que essa derrota ficou em segundo plano. Os tucanos saíram em segundo lugar com jeito de vencedores e os petistas com ar de perdedores. Contribui para o ar triunfal da reestreia do PSDB o chamado "adensamento do entorno".

Rapidamente, já nos primeiros dias, ficou claro que a oposição conseguiria acrescentar novos apoios. Marina Silva sinalizou no domingo, seus aliados da Rede se manifestaram no mesmo sentido, a maior parte do PSB tomou o mesmo rumo, o PPS acompanhou, o grupo dos evangélicos manifestou tendência majoritária e Eduardo Jorge, sucesso entre a juventude, posicionou o PV no campo da oposição.

O governo contou com a declaração de voto de Luciana Genro do PSOL, assistiu ao PMDB reeditar a divisão, mas também terá ao seu lado um exército de 24 governadores eleitos ou candidatos ao segundo turno. Assim que despertar do nocaute, ninguém se iluda, sairá ao combate munido de punhos de aço e sem a pele de cordeiro que agora pode levar à ilusão de que vai se conformar em morrer na praia.

Vacina. Apesar de ter contado com todas as vantagens de ser governo e chegado ao segundo turno em primeiro lugar, o PT já tem pronta a alegação de que não concorre na etapa final em igualdade de condições com o PSDB.

Argumento: nunca, desde Getúlio Vargas, um governo enfrentou a oposição dos meios de comunicação como agora. Ou seja, em caso de derrota, não foi o eleitor quem decidiu, mas a chamada mídia que induziu. Equivale a dizer que houve a mesma indução quando o PT ganhou.

Os duelistas. Se quiser fazer um embate à altura com os tucanos no campo da economia, a campanha de Dilma vai precisar escolher melhor os debatedores. Até agora foram escalados os ministros Guido Mantega e Aloizio Mercadante para enfrentar a turma do Plano Real aliada a Aécio e liderada por Armínio Fraga.

Mantega passou os últimos quatro anos fazendo previsões otimistas reiteradamente desmentidas pelos fatos e está demitido. Mercadante foi quem aconselhou o PT, quando do lançamento do Plano, a apostar que o Real estava fadado o fracasso.

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