Ueslei Marcelino/ Reuters
Ueslei Marcelino/ Reuters

Cai o ministro antiambiental; leia bastidores

'Ricardo Salles foi a antítese de tudo aquilo que se espera de um chefe de Estado responsável por preservar e fiscalizar um dos maiores ecossistemas do planeta'

André Borges, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 19h02

BRASÍLIA – Milhões de árvores tiveram que tombar nos últimos dois anos e meio até que caísse, enfim, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mantido até aqui sob a vigilância e defesa ferrenha do presidente Jair Bolsonaro

Enquanto esteve no governo, Salles foi a antítese de tudo aquilo que se espera de um chefe de Estado responsável por preservar e fiscalizar um dos maiores ecossistemas do planeta. Disparou intrigas e afastou agentes ambientais, criminalizou as organizações do setor, loteou cargos do MMA, Ibama e ICMBio com policiais apadrinhados, instaurou uma lei da mordaça sobre os órgãos públicos. 

De outro lado, enquanto a Amazônia e o Pantanal batiam recordes de desmatamento e queimadas, saiu em defesa não da natureza, mas de seus detratores, colocando em xeque o trabalho da Polícia Civil, reunindo-se com madeireiros criminosos, garimpeiros e tudo o mais que colocasse em dúvida o trabalho de preservação da floresta. 

A gestão Salles chega ao fim com o carimbo da desconstrução absoluta de tudo aquilo que, a duras penas, ainda existia na área da preservação ambiental. Seja em aspectos legais ou mesmo de financiamento para atividades de campo, pouco ou quase nada restou. 

Com o incentivo de Bolsonaro, Ricardo Salles conseguiu acabar com o principal programa de proteção ao meio ambiente que existia no País, o Fundo Amazônia, deixando R$ 3 bilhões paralisados em bancos, recurso repassado pela Noruega e Alemanha ao Brasil, a fundo perdido. O lugar da diplomacia e cordialidade com os países foi tomado por acusações internacionais de toda a sorte. Ao lado de Bolsonaro, Salles acusou os financiadores de serem matadores de baleias e de terem destruído suas próprias florestas. 

Quando foi aos Estados Unidos, causou constrangimento geral, ao dizer que o Brasil só cuidaria do meio ambiente se os americanos e demais países colocassem a mão do bolso. Ante a perplexidade mundial causada pelos recordes em desmatamento e incêndios descontrolados, Salles optou por negar os números e rejeitar a tragédia de sua gestão. 

O meio ambiente, enfim, que há anos colocava o Brasil como referência mundial no setor, transformou o País em um pária mundial, a ponto de conseguir escandalizar o mundo, em plena pandemia da covid-19 e milhares de mortes registradas diariamente. 

Na área de fiscalização, Salles tratou de paralisar tudo o que estava em andamento, alterando normas e regras sobre o processo de autuação ambiental que acabaram por travar todo o trabalho dos agentes. A portas fechadas, criticava duramente o trabalho dos servidores, dizendo que era preciso acabar com a ideologia na área ambiental e promover ao máximo possível entrada de empresas, com privatizações de serviços. 

Salles, que debochou publicamente da importância de Chico Mendes, um dos maiores ambientalistas da história do País, reconhecido internacionalmente pela sua luta pela preservação da Amazônia, atuou para acabar com o ICMBio. Contra todos os argumentos técnicos, que não apontam nenhuma razão para aglutinar o órgão ao Ibama, o ministro montou um grupo técnico para encontrar justificativas que pudessem por um fim ao órgão federal. 

Na gestão de Ricardo Salles, o Ibama se viu sem recursos para pagar itens como a gasolina de seus carros. Ficou sem quitar o aluguel de helicópteros. Viu seus agentes do ICMBio sem dinheiro para bancar diárias, unidades de conservação ambiental sem grana para comprar papel higiênico. 

Nunca, em toda a história dos órgãos ambientais, a penúria financeira se tornou tão aguda. As críticas a essa realidade, porém, sempre foram rechaçadas pelo ministro. Enquanto militarizou os órgãos, Salles impôs uma verdadeira lei da mordaça sobre cada servidor, passando a monitorar tudo o que saia pelo órgão. O controle passou a se impor sobre qualquer declaração que seria dada à imprensa, por mais técnico ou institucional que fosse o assunto. 

A reportagem do Estadão foi alvo desse tipo de censura em diversas ocasiões. Não raramente, a reportagem já sabia que as respostas estavam prontas, mas tinham parado no gabinete no ministro, de onde não saiam mais. 

Com esse histórico, há muito já se questionava como é que o ministro da boiada ainda seguia no cargo. A resposta a essa pergunta vinha a cada discurso de Bolsonaro, a cada declaração elogiosa e abraço apertado dado pelo presidente. Ricardo Salles foi, em síntese, tudo aquilo que Bolsonaro sempre esperou de seu ministro do meio ambiente. Quando a ira do presidente transbordou com imagens de máquinas de criminosos no meio da floresta, Salles prometeu dar um jeito. Como viu que a lei permite a destruição, tratou de afastar cada um dos agentes envolvidos na operação. 

Ricardo Salles, o ministro que tentou liberar a exportação madeira in natura da Amazônia, puxando troncos diretamente da mata para colocar sobre navios cargueiros, acabou sendo enredado na própria teia que criou. Alvo de duas operações da Polícia Federal, foi apontado como agente ativo de uma suposta cadeia que atua no mercado ilegal de madeira. Antes todas as investigações, reagiu da mesma forma como sempre fiz: disse que era vítima de uma falsa “narrativa” sobre os fatos e que, em breve, tudo se esclareceria.

A Polícia Federal, que ele disse respeitar e honrar, passou então a ser alvo de seus ataques, acusada de agir de forma “exagerada” e de, veja-se, “induzir ao erro” o Supremo Tribunal Federal, que determinou as investigações. Na prática, e a narrativa de Salles que hoje conhece seu ponto final. 

O ministro que gostava de dizer que era preciso decidir “que catzo vamos fazer com a Amazônia” sai pelas portas dos fundos, mas nada indica que a política ambiental de Bolsonaro vá mudar a partir da entrada de Joaquim Álvaro Pereira Leite, secretário da Amazônia e Serviços Ambientais. Não importa quem seja o ministro, há Bolsonaro pelo caminho. Temas como a entrada do garimpo em terras indígenas, avanço da produção agropecuária sobre a Amazônia e afrouxamento de regras ambientais estão no centro de seu governo, fazem parte de sua agenda pessoal, são leituras de travesseiro para Bolsonaro e, delas, o presidente não vai abrir mão.

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