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Cadê o bom senso?

Seguir Trump em tudo e eleger o filho como versão brasileira de Jared Kushner não são boas ideias

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2018 | 03h00

De Marina Silva, respeitada pelo mundo afora por suas posições a favor do meio ambiente: “é mais do que constrangedor, é vergonhoso” o presidente eleito, Jair Bolsonaro, retirar a candidatura do Brasil para sediar a COP 25 e alardear que vai sair do Acordo de Paris. Pois não é que ela tem razão?

O Brasil tem limites claros em embates políticos e econômicos internacionais, mas é um líder natural quando o tema é meio ambiente, importante em todo o mundo desenvolvido e democrático e tratado com ligeireza e com viés claramente ideológico pelo governo que vem aí.

Bolsonaro despreza e seu chanceler, Ernesto Araújo, ironiza a questão como “climatismo”. Assim como o “globalismo” e o “antinatalismo”, o “climatismo” e outros ismos seriam parte de um complô perverso contra o Ocidente. Já que o marxismo não conseguiu dominar o mundo pela economia, raciocina o futuro ministro, tenta via domínio cultural.

Esses posicionamentos seguem os do único líder “capaz de salvar o Ocidente”, Donald Trump, e isso não tem graça nenhuma. Ótimo o Brasil se reaproximar dos EUA, mas daí a seguir todos os passos de Trump, além de “constrangedor e vergonhoso”, pode ser desastroso, com altíssimo custo.

A União Europeia, por exemplo, condicionou a aliança com o Mercosul ao Acordo de Paris e o presidente Temer já assumiu o compromisso de Estado nesse sentido, mas Bolsonaro torce o nariz para esse acordo e Araújo explica por que em seus textos. E agora? Tudo combinado? Também é difícil entender o motivo para se meter numa guerra de gigantes, EUA e China, só porque Trump quer barrar o avanço chinês e impôs sobretaxas ao país. O que ganhamos, tomando partido? Nada.

O saldo comercial com a China foi de US$ 50 bi em 2017, maior do que com UE e Mercosul, com superávit de US$ 32 bi a nosso favor. O PT pode até ter “eleito” a China como parceiro número um por ideologia, mas há também pragmatismo e complementariedade. A China é o grande comprador e o Brasil um grande vendedor de commodities. Aliás, reataram relações em 1974, no regime militar.

O mesmo vale para a mudança da embaixada do Brasil para Jerusalém. Trump mudou a dos EUA? Problema dele. O Brasil mantém desde sempre a neutralidade no Oriente Médio, tem profundos laços afetivos, culturais e econômicos com o mundo árabe e, mesmo com a má vontade do PT com Israel, manteve livres as fronteiras comerciais e de cooperação. Bolsonaro pode ampliar essas fronteiras sem dar um tapa na Palestina.

Foi o filho do presidente eleito, deputado Eduardo Bolsonaro, quem se comprometeu com isso em solo americano. Aliás, por que alçar o próprio filho à condição de gênio e interlocutor na política externa, capaz de fazer a primeira viagem internacional e até de sabatinar o futuro chanceler?

Até isso lembra Trump nos EUA, onde a filha Ivanka e o genro Jared Kushner são os únicos com real desenvoltura na Casa Branca, enquanto o presidente vai jogando ao mar um homem atrás do outro e uma mulher atrás da outra de sua equipe. Detalhe: a “expertise” de Kushner, assessor sênior, é justamente a área externa e... o Oriente Médio.

No encontro com John Bolton, no Rio, Bolsonaro quis mostrar a imagem de homem simples e uma falsa intimidade, com um café da manhã sem toalha, com copo de geleia, suco de caixinha e biscoitos, como se fosse para um parente, um velho amigo. Mas era um encontro de trabalho entre um futuro presidente da oitava economia do mundo e o secretário de Segurança da maior potência. 

O correto é não trocar a ideologia do PT pela de quem quer que seja, nem caneladas por “relação carnal” com os EUA (como a Argentina tentou), nem punhos de renda por copos de geleia. Aliás, não se trata só de diplomacia, mas de puro bom senso.

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