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Rodrigo Maia construiu sua força política à revelia de Bolsonaro

João Domingos, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 03h00

Há sinais evidentes de que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), optou por seguir um caminho paralelo ao de Jair Bolsonaro, embora na economia tenha muitos pontos em comum com o governo. Ou, talvez, exatamente por ter pontos em comum com o governo na economia, e este setor ser tocado pelo ministro Paulo Guedes, tão ou mais liberal que ele, é que Maia mostra concordância com várias propostas do governo, como as reformas da Previdência e tributária, além do programa de privatizações ainda a ser lançado, mas não com outras iniciativas ou com a agenda conservadora de Bolsonaro.

Toda a força política que tem hoje, e que aumentou muito depois que passou a se entender perfeitamente com os partidos de centro e de centro-direita que formam o Centrão ou que deste grupo não participam organicamente, Maia a construiu à revelia de Bolsonaro. O presidente tinha outros candidatos para dirigir a Câmara.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que é do DEM, chegou a tentar sabotar a candidatura de Maia à presidência da Câmara. E olha que são do mesmo partido. Não deu certo. Depois, Bolsonaro apoiou os ataques do filho Carlos Bolsonaro a Maia, ataques estes que insinuavam ser o presidente da Câmara uma espécie de chefe da “velha política”, responsável por enfiar a faca no pescoço do presidente para arrancar cargos do governo. Foi um Deus nos acuda, todos se lembram. Restabelecidas as relações, Maia passou a cobrar de Bolsonaro uma atuação maior nos esforços para a aprovação da reforma da Previdência. Hoje, com o projeto já admitido pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, graças à atuação de Maia e do Centrão, Bolsonaro continua devendo uma defesa mais enfática da reforma da Previdência.

O certo é que, a partir do momento em que o Congresso se descolou do Palácio do Planalto, a reforma da Previdência começou a andar. Sem ter de dar satisfação a Bolsonaro, o presidente da Câmara negociou a formação de uma comissão especial para apreciar a proposta que tem, na presidência, um ex-militante do PCdoB, o deputado Marcelo Ramos (AM), hoje no PR, que defende a reforma da Previdência, mas é radicalmente contrário à forma como Bolsonaro administra o País. Numa entrevista ao Estado, publicada ontem, o deputado disse que o governo só tem rumo na economia. De resto, “não tem proposta para o País”. Ramos chegou a aconselhar Bolsonaro a ficar calado sobre a reforma da Previdência até que ela seja aprovada. Para não atrapalhar.

O que Marcelo Ramos disse não difere muito do juízo que Maia já fez do governo, que seria “um deserto de ideias”. O presidente da Câmara não esconde que a pauta conservadora de Bolsonaro nos costumes tem potencial para atrapalhar as votações no Congresso. Não está disposto a abrir espaço para ela se houver riscos de comprometer os trabalhos da Câmara.

Ao assumir a reforma da Previdência, os partidos de centro e centro-direita, aliados a Maia, vislumbraram uma bandeira política para o futuro, apesar de o projeto ser polêmico e enfrentar fortes resistências de corporações poderosas. Com as mudanças que pretendem fazer no texto, como a retirada da redução no valor dos benefícios pagos a carentes (BPC) e do aumento da idade mínima para a aposentadoria rural do projeto, os parlamentares que defendem a reforma previdenciária dirão que mostraram preocupação com o futuro das próximas gerações, garantindo a elas o direito à aposentadoria. E que, ao aprovar a reforma da Previdência, buscaram dar ao País equilíbrio fiscal, o que vai melhorar a economia e garantir a geração de empregos. 

É uma bandeira muito boa, que pode ser tirada de Bolsonaro, à medida que não se vê nele uma disposição forte para atuar em favor da reforma.

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