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Eliane Cantanhêde
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Caçada ao mordomo

O poder é assim: quando as coisas vão bem, todo mundo é amigo, mas, quando vão mal, vira um empurra-empurra, começa uma caçada ao culpado. E o culpado, agora, não pode ser nem a presidente Dilma Rousseff nem o ex-presidente Lula.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2015 | 02h03

O "culpado" pela crise econômica foi o ministro da Fazenda do primeiro mandato, Guido Mantega, demitido em plena campanha de 2014 e amarrado artificialmente à cadeira tal qual um El Cid tupiniquim.

Começa-se agora a desenhar o "culpado" pela crise política: ele tem um bigodão, é petista desde criancinha, foi o senador mais votado do País na sua época, não teve nenhuma importância nos dois mandatos de Lula e tornou-se o todo poderoso do novo governo Dilma.

Sim, é ele, o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que está no centro da boataria e no alvo da artilharia petista e pemedebista nesses tempos de recuos nas medidas do ajuste fiscal e de depoimentos na CPI da Petrobrás, às vésperas da manifestação de domingo.

Em meio a tantas coincidências que andam acontecendo em Brasília (a última foi a reunião de quarta-feira entre Dilma e o ministro Dias Toffoli...), essa é mais uma: bastou Lula jantar com Dilma no Palácio da Alvorada para Mercadante cair na boca do povo. Os dois jantaram na terça. O zunzum da queda de Mercadante da articulação política ficou ensurdecedor na quarta.

E não venham dizer que não foi tão alto assim. Tanto foi que o Planalto, num gesto bem pouco usual, gastou energia e tinta numa nota desmentindo boatos e ratificando a posição de Mercadante. Em São Paulo, a muitos quilômetros de distância, o Instituto Lula também tratou de desmentir o que dez entre dez petistas dizem: que o ex-presidente vive falando mal de Mercadante.

O fato é que Dilma acabou anunciando, no Acre, que está finalmente ampliando o chamado "núcleo duro" do Planalto. Ou ela cedeu às evidências gritantes de que a articulação política não está funcionando ou cedeu às crescentes pressões, principalmente de Lula, para fazê-lo.

Como estava escrito nas estrelas (e aqui neste espaço), a entrada de Gilberto Kassab em campo era só uma questão de tempo. Ministro das Cidades, criador do PSD e com enorme jogo de cintura político, ele entra junto com dois outros ministros: Aldo Rebelo (PC do B), da Ciência e Tecnologia, e Eliseu Padilha (PMDB), da Aviação Civil.

Mercadante deve ficar confinado à coordenação administrativa dos ministros e fora das negociações com a Câmara e o Senado e, muito particularmente, com o PT e o PMDB. Sua passagem pela articulação política foi meteórica, além de desastrada.

O movimento de Dilma confirma também que o ministro oficial da área, Pepe Vargas, não é lá de muita valia e que o trio Mercadante, Rossetto e Berzoini é mais do mesmo e não leva Dilma a lugar nenhum. Especialmente com o Congresso em pé de guerra, comandado por um PMDB armado até os dentes e boa parte da tropa ferida pela Lava Jato.

Só falta alguém de bom senso dar um toque em Dilma de que o ministro da Defesa se transformar em porta-voz do PT, ou de qualquer partido, é um tanto esdrúxulo e pode atrapalhar seu desempenho na relação institucional com as Forças Armadas. Jaques Wagner é um bom político, mas deve se limitar a conselheiro de bastidores da presidente ou optar entre a função na Defesa e a ação no PT.

Por uma questão de justiça, porém, não é correto atribuir os erros estratégicos, os erros táticos, as derrotas na Câmara, os recuos no Senado e todas essas dificuldades a Mercadante. No mínimo, Dilma deveria saber, como Lula sabe, que Mercadante pode ter outras qualidades, mas é o homem errado na hora errada para negociar com petistas e pemedebistas - imagine-se com o resto da base aliada.

Tanto quanto Mantega, portanto, Mercadante é apenas o mordomo nesse enredo frenético de crises.

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