Linus Svensson/SAAB
Linus Svensson/SAAB

Caça Gripen E, da FAB, faz voo inaugural na Suécia

Supersônico construído pelo grupo Saab para a Força Aérea Brasileira voou pela primeira vez nesta segunda-feira; governo brasileiro comprou 36 aviões

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2019 | 18h26
Atualizado 27 de agosto de 2019 | 10h17

O primeiro caça supersônico Gripen E/Br, construído na Suécia pelo grupo Saab para a Força Aérea Brasileira (FAB), voou pela primeira vez na manhã desta segunda-feira, 26. O jato de combate decolou da pista de Liköping às 9h41, horário de Brasília, e pousou às 10h46 depois de 65 minutos de testes preliminares de manobrabilidade e qualidade de desempenho aéreo. A aeronave foi pilotada pelo chefe do programa de ensaios da Saab, Richard Ljungberg.

Pintado de cinza, com variações digitalizadas, e a inscrição "Força Aérea Brasileira" na seção dianteira, o avião leva o registro 39-6001 e a matrícula 4.100, da FAB. Na cauda foi aplicada uma bandeira do Brasil. A designação do Gripen na aviação militar nacional será F-39. Segundo o comandante Ljungberg, "o voo foi tranquilo e confirmou o que era esperado a partir das simulações de engenharia". O jato inicial da série vai servir ao programa de provas.

A unidade 39-6001 já incorpora a principal diferença definida pela área técnica da FAB, um painel no 'cockpit' (a cabine) com desenho inovador, dotado de uma grande tela panorâmica, o Wide Area Display, que oferece mais informações simultâneas. O Gripen E/Br também terá modificações no sistema de comando de voo, e nos recursos de hardware e software. Essas informações são consideradas reservadas. O governo brasileiro comprou 36 aviões. Um negócio de US$ 4,7 bilhões.

Em 2015, o Alto Comando da Aeronáutica considerava um plano para suplementar o lote inicial em mais 72 caças, por meio de encomendas sucessivas. O primeiro modelo regular será recebido pelo 1º Grupo de Defesa Aérea (GDA), da base de Anápolis (GO), em 2021. O último, em 2024. O Gripen E voa a 2.460 km/hora e pode cobrir pouco mais de 3 mil km. Com carga máxima de ataque (um canhão de 30 mm, mais 7.2 toneladas de mísseis e bombas), seu raio de ação é de 800 km 1 mil km.

Futuro

O Gripen E/Br pode ser o último jato de combate e tecnologia avançada comprado no exterior para suprir a aviação militar do País. O programa, segundo analistas internacionais, também abre a possibilidade do Brasil disputar um imenso segmento, de dimensões mundiais, estimado em até US$ 370 bilhões, segundo o Centro de Estudos da Defesa, de Londres. A partir da próxima década, esse mercado será fortemente dominado por cinco protagonistas – Estados Unidos, Rússia, China, Suécia e Índia –, mas também abrirá espaço para a entrada de participantes alternativos, como Coreia do Sul, Japão e Turquia. É aí que que se abrem as possibilidades.

O contrato atual, de US$ 4,7 bilhões, prevê amplo acesso a informações técnicas, capazes de dar a agências do governo, como o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), e a complexos industriais, como a Embraer, a capacidade de conceber uma aeronave de combate de alto desempenho em dez anos. 

Estudo da consultoria inglesa PwC define que as atividades ligadas ao projeto poderão gerar 2,2 mil empregos diretos no setor aeroespacial, “e mais 14.650 postos de trabalho, incluindo outros setores da economia”, assegura um cenário apurado em 2017 pela Comissão Coordenadora Aeronave de Combate (Copac). O valor de todas as contrapartidas financeiras estabelecidas na transação sueco-brasileira supera os US$ 9 bilhões – mais que o dobro do contrato de aquisição.

Todavia, a previsão é de que só por volta de 2050 haja necessidade de trocar toda a frota que está nesse momento em formação. Até lá, os F-39 vão passar ao menos por dois ciclos de modernização. O primeiro lote, de 36 unidades, terá sido suplementado por outras encomendas, já então integralmente atendidas pela fábrica da Embraer Defesa e Segurança (EDS), em Gavião Peixoto (SP). O número total pode chegar a alguma coisa entre 108 e 150 aeronaves.

O projeto, executado pela EDS, parceira da sueca Saab na empreitada, tem viés de faturamento futuro, por meio da capacidade de levar a indústria aeronáutica brasileira a disputar um pedaço de um mercado do tamanho de 4 mil a 5 mil caças que estarão sendo adquiridos no mundo inteiro – fora os Estados Unidos – nos próximos 30 anos. 

Mas não vai ser preciso esperar tanto para tratar dos aspectos comerciais da operação. A Saab quer realizar ações de marketing para novos clientes, demonstrando a configuração com o WAD, o painel de tela única de 16 polegadas, exclusivo da variante do Brasil. 

As ações bilaterais de cooperação preveem a possibilidade de que empresas nacionais façam parte da cadeia de suprimentos do Gripen E/Br. Mais que isso. O modelo biposto, de dois lugares,  é uma exigência apenas do programa da FAB. Servirá para treinar pilotos, mas também atenderá à demanda em ataques especializados, mais sofisticados. Serão construídos oito, sete deles totalmente montados pela Embraer Defesa e Segurança na fábrica de Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, próximo de Araraquara. Eventualmente, chegarão ao mercado externo negociados como um produto binacional.

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