Caça de guerra cruza os céus de São Carlos

O caça Spitfire Mk.IX cruza o céu do interior de São Paulo. Passaram-se 57 anos desde o fim da 2.ª Guerra Mundial, quando o avião se tornou célebre nos combates da Real Força Aérea inglesa (RAF) na Europa e no norte da África. Na época, os conflitos não se estenderam ao espaço aéreo do Brasil e, até o fim do século 20, o aparelho nunca tinha sido visto sobre o território do País. No início da tarde de quinta-feira, no entanto, o famoso caça rompeu a barreira do tempo e aterrissou no Centro Tecnológico da TAM, em São Carlos.O vôo marcou a entrega do Spitfire - doado pela Rolls-Royce - ao Museu Asas de um Sonho, que a companhia aérea está montando na cidade. A inauguração está prevista para 2004. Hoje, a empresa conta com 49 modelos antigos, reunindo aparelhos civis, militares, comerciais e experimentais. "Já foram gastos R$ 4 milhões", estima o diretor da Fundação EducTAM, João Francisco Amaro. "Faltam ainda aviões que combateram na 2.ª Guerra Mundial."?A Ferrari dos aviões?Por esse motivo, Amaro vê a doação do Spitfire como algo inestimável. "É a Ferrari dos aviões", ressalta. A versão Mk.IX do caça foi fabricada em 1943 pela empresa Supermarine, com motor Merlin 70 da Rolls-Royce. O exemplar que agora pertence ao museu da TAM foi emprestado para a Força Aérea dos Estados Unidos na época da guerra. O aparelho chegou a combater na Itália e no norte da África e, em 1944, participou do Dia D, data da invasão da região da Normandia, na França, pelas tropas dos Aliados.Assim como fez com vários dos modelos que estão no acervo do museu, a TAM recuperou o Spitfire, avaliado em US$ 1,8 milhão, na oficina de restauração da empresa localizada em Jundiaí. Houve a troca da cobertura da asa direita, dos radiadores de óleo e do sistema de refrigeração. Também mexeu-se no trem de pouso. As alterações permitiram ao caça voar novamente depois de várias décadas. No teste, que ocorreu na semana passada, o Spitfire cruzou o céu do País pela primeira vez na história.SonhoNo seu segundo vôo, que ocorreu na quinta-feira, o aparelho foi levado para São Carlos pelo piloto de testes da Rolls-Royce Phill O´Dell. "Trata-se de um avião adorável", diz. "Quando entro nele, eu me lembro das pessoas que voaram durante a guerra." Apesar de ter nascido depois do conflito, O´Dell observa que a mãe costumava falar sobre os Spitfires sobrevoando Southampton, no sul da Inglaterra.O sonho de voar em um dos modelos marcou toda a sua carreira de piloto. No meio da platéia que assistia à chegada do caça, o engenheiro Sérgio Cosulich, de 68 anos, reencontrou os seus tubulentos dias de infância na Itália, quando via os modelos no céu. "Em 1943, começaram a aparecer os primeiros."Segundo ele, conta-se que na 2ª Guerra o comandante-chefe da Força Aérea da Alemanha (Luftwaffe), Hermann Goering, perguntou a um grupo de pilotos o que eles queriam. "Eles responderam que desejavam o esquadrão do Spitfire", destaca. "Em inglês, a palavra quer dizer ´cuspir fogo´."Símbolo de resistênciaA versão Mk.IX foi uma das últimas fabricadas durante a 2ª Guerra. Na época, o desenvolvimento do novo modelo tinha o objetivo de ajudar os pilotos da RAF a derrotar o seu arquiinimigo, o caça alemão Focke Wulf FW 190. Criado pelo projetista Reginald Mitchell, o primeiro Spitfire voou em 5 de março de 1936, três anos antes do início do conflito. O aparelho teve participação decisiva em uma série de combates, mas ganhou fama em 1940. O desempenho do caça durante a Batalha da Inglaterra, evitando a invasão da Grã-Bretanha pelos alemães, transformou-o em um símbolo.A visão do caça emociona pilotos como o comandante Fernando Corrêa Rocha, de 80 anos, integrante do 1º Grupo de Caça da Força Aérea Brasileira durante a 2ª Guerra Mundial. "Embora eu voasse em um avião muito mais possante e moderno, tinha grande admiração pelo Spitfire", ressalta. "É o símbolo da resistência à opressão nazista contra a liberdade."Para celebrar a chegada do aparelho, a TAM promoveu um show aéreo. Entre acrobacias e vôos rasantes, o público vibrou com as coreografias feitas por Marta Lúcia Bognar sobre a asa do avião Showcat, pilotado por Pedrinho Mello. Marta pratica o wingwalking desde 1992. "O piloto cria as condições para que eu faça a coreografia", diz. Isso não impede que o aparelho, que imita um modelo da década de 30, faça, por exemplo, um looping. "Resgatamos uma atividade das primeiras décadas do século passado", explica Mello.

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