Cabral some da campanha de Pezão

Impopular, ex-governador não é citado e pouco aparece no horário eleitoral de seu sucessor

WILSON TOSTA, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h23

RIO - Procura-se o ex-governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) na campanha eleitoral do Rio. Ele praticamente sumiu das atividades públicas de seu sucessor e candidato à reeleição, governador Luiz Fernando Pezão, apesar das obras e investimentos que deixou. Mesmo na propaganda de televisão da coligação liderada pelo PMDB, sua participação é quase imperceptível. Em um dos programas, elogia Pezão, mas não diz que o candidato foi seu vice e secretário de confiança.

Cabral não é identificado como ex-mandatário do Estado - é apresentado só pelo nome. Em uma apresentação relâmpago do horário de Pezão, fala por 14 segundos, mas aparece na tela por apenas oito. "O ex-governador Cabral não é candidato. Pezão precisa se tornar conhecido, 40% do eleitorado não sabe que é governador. Nossa estratégia é Pezão, Pezão, Pezão", diz o presidente do PMDB do Rio, Jorge Picciani. "No início do programa de televisão, Pezão era conhecido por 54% do eleitorado. Com dois dias, tinha ido a 59%. O maior ativo que temos é a TV. Se tirarmos Pezão de lá, estamos mortos."

Já o cientista político Ricardo Ismael, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), aponta no sumiço do ex-governador um competente trabalho de marketing da assessoria de Pezão. Segundo ele, haveria o afastamento de um líder impopular para construir a imagem de um novo governador, simpático e de origem humilde. "A narrativa tenta mostrar Pezão como um sujeito boa-praça, trabalhador, que não vai acabar com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e sem ligações com o antecessor", diz o pesquisador. "Sumiram com Cabral para não contaminar Pezão."

Cabral renunciou ao cargo no início de abril. Oficialmente, o objetivo era dar visibilidade a Pezão, um político do interior com imagem de "tocador de obras", mas pouco conhecido, sobretudo na região metropolitana. Ao renunciar, porém, o ex-governador carregou consigo o peso da baixa popularidade, criada por sucessivos erros de gestão de imagem. Como as espalhafatosas visitas a Paris e Mônaco, as viagens ao exterior pagas pelo Estado, o episódio em que auxiliares do então governador foram fotografados com guardanapos na cabeça na capital francesa e o uso diário de helicóptero oficial, inclusive para ir à sua casa de veraneio, em Mangaratiba.

Protestos. Houve ainda dificuldades de relacionamento com movimentos sociais - como a greve de bombeiros, apoiada pela opinião pública. As manifestações de junho de 2013, reprimidas com violência pela Polícia Militar, catalisaram e aumentaram a insatisfação. Depois, outros problemas ajudaram a acuar Cabral. O desaparecimento do auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza depois de detido por policiais militares na Rocinha desgastou o então governador e seu programa de UPPs. Houve ainda o movimento Ocupa Cabral, um acampamento na rua onde mora o peemedebista, no Leblon, na zona sul do Rio, e os conflitos de manifestantes com policiais perto do Palácio Guanabara.

Cabral desabou de 55% para 20% de aprovação de novembro de 2010 ao mesmo mês de 2013, segundo o Datafolha. Apesar da renúncia ao governo, desiste de tentar o Senado, como se especulava. "Cabral, generosamente, abriu mão de nove meses de governo para a população ver o jeito de Pezão governar", diz Picciani.

O presidente da Assembleia Legislativa, Paulo Melo (PMDB), diz que o governador participa dos bastidores da campanha. "Ele está articulando", afirma. "Na hora certa, se precisar, vai aparecer." Picciani dá declarações semelhantes. "Cabral é o principal líder do partido. Nada é feito no PMDB sem ouvi-lo." Ambos insistem que Cabral desapareceu para divulgar a imagem de Pezão.

O argumento não explica por que Pezão nem menciona Cabral. No debate de candidatos a governador do Rio promovido pela Band, Pezão não respondeu a provocações de adversários quando atacaram Cabral. Preferiu falar em "nosso governo", de forma genérica, sem lembrar que, por sete anos e três meses, foi chefiado pelo antecessor e padrinho político. Quem elogia o governo Cabral é seu filho, Marco Antônio Cabral, candidato a deputado federal, no horário eleitoral gratuito.

O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, diz que Pezão sempre cita Cabral nos discursos. "Agora, o material não tem fotos de Cabral e Pezão."

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