Wilton Junior / Estadão
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Cabral ordenou transporte de valores em esquema de corrupção, diz ex-assessor

Em depoimento, Luiz Carlos Bezerra disse que mãe e irmãos do ex-governador recebiam mesada; acusado também confirmou que levava dinheiro ao escritório de Adriana

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2017 | 12h31

RIO - O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral passou a ordenar pessoalmente a partir de 2016 o transporte de valores dentro do esquema de corrupção que desviou milhões de reais dos cofres públicos. A afirmação foi feita por Luiz Carlos Bezerra, ex-assessor de Cabral, em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7a Vara Federal Criminal, no Rio de Janeiro.

Bezerra foi preso preventivamente no âmbito da Operação Calicute por suposta participação em esquema de corrupção durante a gestão do peemedebista. No depoimento desta quinta-feira, 4, ele reconheceu que fazia o transporte de valores da rede montada por Cabral desde 2010, na campanha pela reeleição. A partir de 2011, a movimentação de recursos já não tinham relação com a campanha, reconheceu.

Segundo Bezerra, quem organizava o esquema de pagamentos era Carlos Miranda, preso junto com o ex-governador. Miranda e Cabral foram sócios em uma empresa, a SCF Comunicação e Participações e são amigos de infância. Ele foi também casado com uma prima de Cabral.

No entanto, o próprio Cabral passou a instruir recebimentos e pagamentos a partir de 2016.

Bezerra confirmou que levou dinheiro ao escritório de Adriana Ancelmo, mulher de Sergio Cabral, umas cinco ou seis vezes. O dinheiro era entregue em espécie, em quantias que alcançavam centenas de milhares de reais transportado dentro de uma mochila, segundo a investigação.

Segundo Michelle Tomaz Pinto, ex-secretária de Adriana, as visitas de Bezerra ocorriam geralmente às sextas-feiras. Ela disse ter presenciado ‘as entregas’ durante os anos de 2014 e 2015. No depoimento de hoje, Bezerra disse que fez as entregas diretamente a Michelle.

O acusado também afirmou que levou dinheiro a duas joalherias, HStern e Antonio Bernardo, mas que não transportou as joias.

Bezerra também fazia uma contabilidade paralela do esquema. Em seu apartamento, foram encontradas as anotações sobre arrecadação de propina e pagamento a membros da organização, além de familiares de Cabral.

“De acordo com anotações reproduzidas em imagens contidas em seus e-mails, chega-se à conclusão de ele administrava o caixa em dinheiro vivo angariado pela organização criminosa”, indica a força-tarefa.

Bezerra confirmou que fazia pagamentos regulares de mesadas a parentes de Cabral. Entre os citados estão a mãe do ex-governador, Magaly Cabral, os irmãos Maurício e Claudia, a sobrinha Maria, os filhos de Cabral e a ex-mulher Suzana Cabral. Segundo as anotações confirmadas pelo acusado, os pagamentos a Suzana Cabral eram de R$ 55 mil, mas houve registro de um repasse de até R$ 325 mil. 

O esquema de corrupção que envolvia o ex-governador chegou a movimentar cerca de R$ 1 milhão mensais, segundo estimativa de Bezerra, ex-assessor de Cabral, que prestou depoimento hoje ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, no Rio de Janeiro.

As anotações que Bezerra fazia sobre a entrada e saída de recursos mostram que ele chegou a movimentar mais de R$ 37 milhões desde 2011. Ele estima que, mensalmente, o volume em circulação chegava a R$ 1 milhão.

Para fazer parte do esquema, o ex-assessor de Cabral recebia R$ 30 mil mensais.

“Eu ganhava um salário razoável. Nunca me foi dito nada. Nunca perguntei”, disse o acusado, em depoimento. “Às vezes tinha uma bonificação, às vezes tinha um pouco a mais”, acrescentou.

Segundo Bezerra, quem organizava o esquema de pagamentos era Carlos Miranda, preso junto com o ex-governador. Miranda e Cabral foram sócios em uma empresa, a SCF Comunicação e Participações e são amigos de infância. No entanto, o próprio Cabral passou a instruir recebimentos e pagamentos a partir de 2016.

Na decisão que mandou prender o ex-governador do Rio, o juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal, afirmou que ‘é possível concluir, em avaliação ainda preliminar’ que Carlos Bezerra é ‘um dos responsáveis pela distribuição do dinheiro ilícito, mantendo registros contábeis informais e também providenciando documentos fiscais de várias empresas para dar aparência de legitimidade aos recursos movimentados (lavagem de dinheiro)’.

Durante o governo de Cabral no Rio, Carlos Bezerra exerceu cargo em comissão de Assessor Especial da Diretoria Geral de Administração e Finanças, da Secretaria de Estado da Casa Civil. Ele foi preso preventivamente no âmbito da Operação Calicute por suposta participação em esquema de corrupção durante a gestão do peemedebista.

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