DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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‘Cabeças pretas’ do PSDB pressionam por desembarque

Grupo formado por jovens parlamentares do partido pede que tucanos entreguem cargos no governo; Tasso tenta conter ‘rebelião’

Pedro Venceslau e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2017 | 05h00

SÃO PAULO E BRASÍLIA - A bancada do PSDB na Câmara está dividida sobre a permanência do partido no governo Michel Temer. O grupo conhecido como “cabeças pretas” – em oposição aos “cabeças brancas”, que formam a cúpula da legenda – pressiona para que os tucanos entreguem imediatamente os cargos na administração.

O movimento “rebelde” ganhou uma adesão de peso: o deputado Carlos Sampaio (SP), vice-presidente jurídico do partido. “Penso que ser responsável com o País, hoje, é pensarmos imediatamente, de forma equilibrada e serena, numa transição que respeite o regramento constitucional. O presidente Michel Temer perdeu as condições mínimas de governabilidade”, disse o parlamentar ao Estado.

Diante do avanço do grupo, o senador Tasso Jeiressati (CE), presidente interino do PSDB, foi chamado nesta quarta-feira, 24, para acalmar os ânimos na reunião da bancada, que conta com 48 deputados.

Por ora, a decisão é aguardar os próximos acontecimentos, mas o dirigente ouviu vários discursos exaltados. O líder do PSDB na Câmara, Ricardo Tripoli (SP), também tenta conter o movimento. A ideia é ganhar tempo para articular uma saída política de consenso da base e escolher um nome para disputar a eleição indireta em conjunto com o PMDB e o presidente Michel Temer.

A defesa do peemedebista pelos tucanos, porém, já não é mais tão enfática. “Se o presidente Temer por acaso tiver de sair, será por meio da Constituição. Não nos afastaremos um milímetro dela. Vamos seguir o livrinho”, afirmou Tasso, referindo-se à possibilidade de eleição indireta no Congresso para escolher o sucessor de Temer.

Dos quatro ministros que o PSDB tem no governo, apenas o titular de Cidades, Bruno Araújo, compareceu ao encontro desta quarta-feira. Quando as delações da JBS atingiram Temer, na semana passada, Araújo chegou a ensaiar um pedido de demissão. Deputado licenciado, o ministro foi convencido pelo presidente a ficar.

O PSDB e o DEM definiram que atuarão em bloco na crise. Enquanto os tucanos defendem o nome de Tasso em caso de eleição indireta, o DEM ventila a candidatura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ). 

“A decisão é sair unido, embora alguns achem que o partido deve sair já (do governo) e outros no próximo dia 6, após a votação (da cassação da chapa Dilma-Temer) no TSE. Tasso pediu a unidade de todos”, disse Tripoli.

Ala jovem. Em outra frente, jovens lideranças do PSDB que ganharam força nas eleições municipais do ano passado também pressionam pelo rompimento do PSDB com a gestão Temer. “Não faz mais sentido continuar apoiando o governo Temer”, disse ao Estado o prefeito de São Bernardo do Campo (SP), Orlando Morando.

Ele gravou em vídeo sua posição e distribuiu em um grupo de WhatsApp do PSDB. A iniciativa repercutiu na reunião da bancada. Outro nome “cabeça preta” que pede abertamente a renúncia de Temer é o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan. “Há um desejo da base do PSDB, de prefeitos, vereadores, deputados estaduais e alguns federais de sair da base do governo”, disse o tucano.

Os diretórios estaduais do PSDB no Rio Grande e Rio de Janeiro se posicionaram pela saída do PSDB do governo.

O diretório de São Paulo ameaçava seguir o mesmo caminho, mas foi contido pelo governador Geraldo Alckmin, que está afinado com a cúpula nacional do partido.

Armínio. Em meio ao aumento das incertezas políticas, o nome do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga passou a ser lembrado por tucanos para o Ministério da Fazenda em uma eventual queda de Temer.

O nome do ex-presidente do BC já tinha sido cogitado quando Temer estava montando a sua equipe econômica. Ele também foi o “ministro” da Fazenda escolhido pelo senador Aécio Neves durante a campanha presidencial de 2014.

Publicamente, deputados do partido evitam falar sobre eventual substituição de Henrique Meirelles do Ministério da Fazenda, sob o argumento de que ainda é cedo e de que qualquer discussão nesse momento sobre o assunto poderia gerar uma instabilidade no mercado.

Em reservado, porém, reconhecem que Fraga tem preferência de alguns tucanos, embora uma eventual agenda de reformas seja muito semelhante à de Meirelles.

Parlamentares do PSDB afirmam que, pela importância do cargo, o comando da Fazenda também entrará na negociação entre os grandes partidos sobre a substituição do presidente. / COLABORARAM IGOR GADELHA, RENAN TRUFFI E ADRIANA FERRAZ

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