Bustani perde posto em Londres

O Ministério das Relações Exteriores confirmou o afastamento do embaixador José Maurício Bustani, que ocupava provisoriamente o posto de cônsul-geral do Brasil em Londres. Ele assumiu o cargo depois de ter sido afastado da direção da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq), em abril, por pressão dos Estados Unidos. O motivo da interrupção da missão de Bustani na Inglaterra foi uma entrevista concedida à BBC de Londres, na terça-feira, em que ele criticou abertamente o governo brasileiro no episódio que resultou na sua destituição da Opaq.Na entrevista, Bustani afirmou que o governo não se empenhou o suficiente para que ele permanecesse à frente da organização. "Eu posso dizer o que me foi dito por todos os embaixadores latino-americanos, muitos africanos e asiáticos: a América Latina se absteve de votar a meu favor porque não houve pedido por parte do Brasil", declarou o embaixador à BBC. Nos bastidores do Itamaraty, comentou-se que o embaixador "perdeu a compostura", e, mais do que isso, a confiança do governo. Por isso, dificilmente será designado para novo posto no exterior.A saída de Bustani da Opaq, em abril, foi decidida por 48 votos contra sete. Apenas China, Rússia, México, Irã, Bielo-Rússia, Cuba e Brasil votaram a seu favor. E houve 43 abstenções, a maioria de países latino-americanos.Oficialmente, o governo dos Estados Unidos considerou ruim a administração de Bustani e o responsabilizou pelos problemas financeiros da entidade. Nos bastidores sabia-se que os EUA eram contra a orientação mais independente que Bustani queria imprimir à organização. O brasileiro defendia a ampliação da Opaq para incluir países como Iraque e Líbia, contrariando os interesses norte-americanos.Ao ser questionado pela BBC sobre o impacto de sua saída da Opaq na diplomacia brasileira, Bustani disse que foi um "desgaste enorme". "Um país que não está preparado para lutar por um representante seu não está preparado para enfrentar as pressões que lhe serão impostas se ele se tornar um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, coisa que eu entendo que o governo brasileiro quer hoje."Quando Bustani deixou a Opaq, o presidente Fernando Henrique Cardoso lamentou o fato e o Itamaraty divulgou nota oficial condenando o afastamento do diplomata. Mas as relações entre o embaixador e o Itamaraty ficaram estremecidas. Na época, ele já havia criticado o governo brasileiro. Apesar disso, o Itamaraty resolveu confiar-lhe provisoriamente o Consulado do Brasil em Londres, no lugar do embaixador Paulo de Oliveira Campos, que está temporariamente no Brasil para organizar um evento do Itamaraty.Um dos objetivos ao mandá-lo para Londres era mantê-lo na Europa, perto de sua mulher, Jeanine Bustani, que também é diplomata e trabalha em Haia - onde fica a sede da Opaq. No entanto, após a entrevista, considerou-se que Bustani "perdeu a compostura" e está desequilibrado.Por isso, ele acabou caindo no ostracismo, e não deverá mais ser designado para nenhum posto diplomático em nenhuma parte do mundo - pelo menos neste governo.

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