Bush revela a FHC preocupação com a Venezuela

O presidente George W. Bush transmitiu ao presidente Fernando Henrique Cardoso, durante conversa na Casa Branca, na sexta-feira, a crescente exasperação de seu governo com os atos de desafio aos Estados Unidos do presidente Venezuela, Hugo Chávez. O líder americano deixou clara também sua preocupação com os efeitos da crescente instabilidade política sobre os suprimentos de petróleo do País, que é, em algumas época do ano, o maior fornecedor externo dos EUA. O líder venezuelano é esperado em Brasília na terça-feira. Embora o objetivo da visita de Chávez seja discutir a integração regional e a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), Fernando Henrique deverá transmitir-lhe o que ouviu de Bush e dizer que compartilha de algumas das preocupações de seu colega americano. Chávez também será alertado sobre a disposição menos tolerante da nova administração republicana em relação a certas iniciativas de seu governo, como aberturas políticas a Saddam Hussein, do Iraque, a aproximação com Fidel Castro e o apoio aos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Aos olhos de Washington, essas iniciativas são calculadas mais pelo desejo de Chávez de desafiar Washington do que de promover o interesse de seu país. O secretário de Estado americano, Colin Powell, e a conselheira de segurança nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice, já haviam manifestado preocupação com a situação na Venezuela e posturas antiamericanas de Castro em encontros com o chanceler Celso Lafer, no mês passado. A recente nomeação do cubano-americano Otto Juan Reich para o posto de secretário de Estado adjunto para a América Latina ampliou o espaço para atritos entre Washington e Caracas. Um homem do lobby anticastrista da Flórida, Reich foi embaixador dos EUA na Venezuela nos anos 80, tem ligações pessoais com as forças que Chávez alijou do poder. Como co-apresentador, até recentemente, do programa de debates Choque de Opiniões, da rede CNN, Reich fez constantes e duros ataques contra o líder venezuelano, um ex-tenente-coronel do Exército que chefiou duas tentativas de golpe militar nos anos 90, antes de ser eleito presidente, por esmagadora maioria. Clinton - No início do governo de Chávez, Fernando Henrique aconselhou seu amigo Bill Clinton, que estava então na Casa Branca, a não antagonizar o novo líder venezuelano. Ao mesmo tempo, que usasse de sua influência sobre Chávez para convencê-lo a moderar suas posturas populistas e a buscar alianças que lhe permitissem executar reformas capazes de produzir resultados. Em lugar disso, o líder venezuelano usou sua popularidade para estabelecer seu controle sobre o Congresso, a Suprema Corte e a maiorias dos governos estaduais, por meio de uma série de referendos e eleições. Mas os resultados não apareceram, a lua-de-mel terminou e os protestos já começaram. "A troca de de governo nos EUA, por uma administração mais convervadora, e a deterioração da situação interna na Venezuela, como mostra a explosão de greves e protestos públicos contra o governo, na semana passada, complicaram a intevenção de vozes de moderação, como a do presidente brasileiro", disse um dos interlocutores de Fernando Henrique, durante sua visita a Washington. É cada vez mais óbvia a preocupação em relação a Chávez, tanto no Itamaraty como no Planalto. "O Brasil tem interesses concretos a preservar na relação bilateral com a Venezuela e a instabilidade em países vizinhos é algo que não nos interessa", disse um diplomata. Uma preocupação imediata, compartilhada por Brasília e Washington, é com a possível reação de Chávez, um homem de instinto autoritário, às manifestações contra seu governo.

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