Busca de ossadas no Araguaia começa hoje

Equipe do Ministério da Defesa vai à principal base militar na região

Leonêncio Nossa, MARABÁ, O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2009 | 00h00

Começa hoje a fase preparatória das novas buscas de corpos de integrantes da Guerrilha do Araguaia (1972-1975) no Sul do Pará. Uma equipe do Ministério da Defesa visitará a Casa Azul - principal base militar na região durante o conflito - e o cemitério São Miguel, no centro antigo de Marabá. Dos 67 guerrilheiros mortos pelo Exército, apenas dois tiveram os corpos identificados até hoje pelo governo - Maria Lúcia Petit e Bergson Gurjão Farias. A possível retirada de corpos só ocorrerá em agosto.O campo militar da Casa Azul foi local de prisão, tortura, interrogatórios e até fuzilamento. Boa parte dos 41 guerrilheiros executados pelo Exército passou pelas celas da base militar, que fica à beira da Transamazônica e do Rio Itacaiúnas, entre eles, Arlindo de Pádua Costa (Piauí), Cilon Brum (Comprido) Dinalva Teixeira (Dina) e Maria Luiza Garlippe (Tuca).Um dos torturados, o guerrilheiro José Piauhy Dourado, o Ivo, não suportou a violência do interrogatório e acabou morto na própria base da Casa Azul.COVA RASAJá Divino Ferreira de Souza, o Nunes, ferido num combate, acabou morto numa sala do campo de extermínio. Soldados contaram mais tarde que o guerrilheiro foi sepultado numa cova rasa embaixo de um centenário pé de sumaúma, espécie típica da Amazônia.A visita da expedição do Ministério da Defesa, no entanto, tem características simbólicas. É provável, segundo militares que participaram dos combates, que os corpos enterrados em bases como a da Casa Azul, de Xambioá e da Bacaba tenham sido exumados durante a chamada Operação Limpeza, em 1975, e levados para cemitérios clandestinos da região.CASA AZUL INTACTAEm 1990, agentes disseram à imprensa e a pesquisadores do Araguaia que a Casa Azul funcionava onde hoje é o Fórum de Marabá e sua estrutura foi totalmente modificada. Livros e reportagens divulgados nos últimos anos aceitaram essa versão. A verdadeira Casa Azul, no entanto, ainda está intacta. Fica em frente ao fórum, do outro lado da pista da Transamazônica. Toda a antiga base é ocupada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). A construção utilizada pelo comando militar - e que servia também de local de torturas - está atualmente desativada.É uma casa azul e branca de apenas um pavimento, em forma de L, com três portas e 14 pequenas janelas e coberta com folhas de amianto e zinco.O mais antigo funcionário do local que já foi o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), atual DNIT, em Marabá, Antônio Jacques Milhomem, guarda lembranças do período mais trágico da história da cidade. "Não acho que houve guerrilha. Houve uma caçada", diz o funcionário. "Isso foi caçar rato dentro de casa." Amanhã, a expedição visitará a base militar da Bacaba e sítios no município de São Domingos do Araguaia.

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