Burns: ´Brasil é o país mais poderoso da América do Sul´

Em visita de dois dias ao Brasil, o subsecretário de Estado dos Estados Unidos para Assuntos Políticos, Nicholas Burns, marcou o início de uma nova fase no relacionamento entre os dois países. Os EUA, segundo ele, vêem o Brasil como parceiro preferencial numa América Latina marcada pela liderança ascendente do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e seu declarado antiamericanismo. ´Não há dúvida de que o Brasil é o país mais poderoso da América do Sul. Com seu tamanho, sua população e sua economia, é uma enorme força. E achamos que o Brasil está seguindo uma agenda muito responsável, muito cooperativa, muito positiva.´Nesta entrevista exclusiva, Burns diz que o interesse dos EUA na parceria com o Brasil para a produção de biocombustíveis tem como objetivo reduzir a dependência em relação ao petróleo de nações encaradas como inimigas, como Venezuela e Irã: ´A energia se transformou em um grande tema diplomático e ela às vezes distorce e amplia o poder de um país além do que provavelmente ele deveria ter.´O presidente Hugo Chávez tem influência crescente na América Latina. Como os EUA vêem isso?Na América do Sul, nosso foco está nos amigos, no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Peru, no Equador, em todos os países amigos que temos. Em Washington, estamos tentando ter uma agenda positiva.Temos uma agenda positiva com o presidente Lula. Temos uma agenda positiva com o presidente Uribe, da Colômbia. Não temos exatamente uma relação com Hugo Chávez, porque ele decidiu não ter uma relação. Na nossa visão, a sua política é a política do negativo, da divisão. Ele tenta criar um movimento contra os Estados Unidos. Como vamos ter conversas sobre mudanças no clima, biocombustíveis, comércio, redução da pobreza, justiça social e turismo, se não nos integrarmos e trabalharmos juntos? A agenda com o Brasil é positiva, com a Argentina é positiva, com Peru é positiva. Mas a agenda com Chávez não é. É escolha dele e ele é livre para fazer suas escolhas, mas não temos que segui-lo. Não pensamos todos os dias a respeito dele. Mas pensamos sobre o Brasil todos os dias, sobre a Argentina também.O governo americano acredita que países como o Brasil e a Argentina podem contrabalançar a influência de Chávez?Essa é uma questão para a América do Sul trabalhar. Não vamos interferir no Mercosul. Mas hoje há uma agenda global e temos que cooperar globalmente em todos os desafios. É importante que os países achem uma maneira de serem positivos, confiar uns nos outros e trabalhar juntos. Na nossa visão, a agenda de Chávez representa uma política do passado: nacionalização de indústrias, discurso contra os EUA. Isso é o passado, não o futuro.O Brasil não teria, na visão dos EUA, papel de tentar exercer influência positiva na América do Sul?Temos grande respeito pelo presidente Lula e pelo Brasil. E não há dúvida de que o Brasil é o país mais poderoso da América do Sul. Com seu tamanho, sua população e sua economia, é uma enorme força. E achamos que o Brasil está seguindo uma agenda muito responsável, muito cooperativa, muito positiva na América do Sul e na relação Sul-Sul. Não seria certo dar conselhos ao Brasil sobre como lidar com a Venezuela. Vocês sabem isso melhor do que nós. Posso dizer como nós nos relacionamos com a Venezuela. Admiramos o povo venezuelano e lhe desejamos todo o sucesso, mas Chávez, em todo o mundo, quando as pessoas olham para ele, dizem: ´Não faz parte das soluções para os nossos problemas.´Existe uma imagem no Brasil de que os presidentes Lula e Bush têm uma boa relação pessoal.Sim, eles têm.O senhor acha que essa relação pessoal pode, de alguma forma, compensar as constantes desavenças comerciais entre os países?Sim. A política segue as regras da natureza humana. Não é impessoal. Há fatos objetivos, mas há também fatos pessoais. O fato de o presidente Bush e de o presidente Lula gostarem um do outro, confiarem um no outro, admirarem um ao outro é bom para o Brasil e bom para os EUA. Porque o sinal que é enviado para o resto de nós, que está trabalhando para eles, é que o presidente Bush acredita que o Brasil é importante, admira o presidente Lula e quer que tenhamos sucesso no Brasil.O ex-embaixador do Brasil em Washington Roberto Abdenur diz que há um sentimento antiamericano na diplomacia brasileira. Nos EUA, isso é perceptível?Bem, vou ser muito cuidadoso ao responder essa pergunta. É obviamente um assunto sensível. Tenho grande respeito pelo embaixador Abdenur. Ele fez um grande trabalho e todos gostamos dele. É um amigo. Tenho grandes amigos no Ministério das Relações Exteriores.O futuro embaixador em Washington, Antonio Patriota, é meu amigo. Sei que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, gosta do ministro Celso Amorim. Nossos Ministérios das Relações Exteriores trabalham muito bem juntos. Eu diria que a maioria dos diplomatas brasileiros concorda com isso. A relação entre o Brasil e os EUA é boa, mas pode ser mais forte e melhor.A política externa brasileira privilegia a relação com os países menos desenvolvidos, numa linha conhecida como Sul-Sul. Isso é um bom negócio?O Brasil é um grande país e deve tomar suas próprias decisões. Parece que o Brasil está certo em ter uma orientação Sul-Sul porque é hoje um dos grandes líderes do mundo. O Brasil tem apelo para alguns países pobres porque eles vêem que o Brasil teve sucesso. O Brasil tem laços étnicos e de língua com países africanos, além de com países europeus. Então, se o Brasil pode ter uma boa relação Sul-Sul com países da América Latina e da África, é positivo. Mas não é uma situação tudo ou nada. Além disso, obviamente esperamos que o Brasil vá ter uma boa relação com os EUA e com a Europa. Há poucos países em condições de serem globais: Estados Unidos, China, Índia, Japão, União Européia e Brasil. Então a política exterior do Brasil deve ser Sul-Sul, mas também global.Por que os EUA se interessaram por uma parceria com o Brasil para desenvolver a produção de biocombustíveis, em especial etanol?Viemos desenvolvendo nossa indústria de etanol por uma geração, devagar, construindo. Temos um problema de energia no mundo. Somos muito dependentes do petróleo. Não é bom para nossa economia, não é bom para o meio ambiente. Então, temos que desenvolver combustíveis alternativos, temos que diminuir nosso consumo de gasolina. Produzimos etanol de milho porque temos grandes plantações de milho. Vocês produzem etanol de cana-de-açúcar. Somos os dois líderes do mundo. Temos mais de 70% do mercado mundial. Achamos que essa é uma conexão com o Brasil, é uma área em que podemos crescer juntos e podemos liderar o desenvolvimento de um mercado mundial com conseqüências muita positivas para o meio ambiente e para a economia. Quando o presidente Lula e o presidente Bush se encontrarem esse vai ser um grande tema. Os biocombustíveis vão se tornar o maior e o mais positivo ponto de conexão entre Brasil e Estados Unidos.Como deve funcionar essa associação?Nossos cientistas podem ter cooperação em pesquisa e desenvolvimento para melhorar a eficiência do etanol de milho e de cana, melhorar a produtividade. Também é preciso pensar em redes de distribuição, para chegar aos mercados. Na visão dos americanos, Brasil e EUA podem estimular a produção de etanol na América Central, no Caribe e na América do Sul. Se há um mercado global para gás e para petróleo, por que não um mercado global para etanol? Se a demanda aumentar no mundo, é bom para o Brasil e é bom para os EUA. Isso vai estimular a produção nos nossos países e trará benefícios ambientais globalmente.O fato de que entre os principais produtores de petróleo do mundo figuram Irã e Venezuela é um fator para essa decisão?Sim, é. A energia se transformou em um grande tema diplomático e ela às vezes distorce e amplia o poder de um país além do que provavelmente ele deveria ter. Em alguns casos, isso pode ser positivo. Em outros, negativo. Diríamos que é negativo no caso do Irã e da Venezuela. Então, não queremos ser dependentes desses países. E devemos nos importar com o meio ambiente e com as mudanças climáticas. Biocombustíveis têm vantagens econômicas, políticas e ambientais.Os EUA são vistos como um grande vilão do meio ambiente.Sei que a imagem dos EUA é de que não somos signatários do Protocolo de Kyoto, que somos responsáveis por uma larga porcentagem da emissão de gases. Esse é um problema para a nossa geração e para as nossas crianças. Temos a responsabilidade de ser parte de uma solução. Estivemos à frente em algumas áreas, mas ficamos para trás em outras. Temos uma obrigação de contribuir para diminuir as mudanças climáticas e podemos fazer isso diminuindo nossa dependência de petróleo, desenvolvendo outras fontes de energia limpa. Mas espero que os seus leitores venham a saber que não somos os vilões. Gastamos mais de US$ 29 bilhões em dinheiro do governo, desde 2001, em pesquisas sobre energia e tecnologias limpas, biocombustíveis, energia nuclear e tecnologia de carvão limpo. Neste ano, vamos gastar US$ 6,7 bilhões. Mais do que qualquer outro país do mundo. Não assinamos o Protocolo de Kyoto, mas isso não foi uma decisão tomada por um homem, George W. Bush. O nosso Senado optou por isso, e foi muito impopular no nosso país. Índia e China assinaram o protocolo, mas são os dois maiores emissores de gás carbônico, junto com meu país.E o Brasil?Se eu tiver que nomear um país no mundo que está liderando é o Brasil. Por causa da produção de etanol, por causa dos carros flex, o Brasil é um líder positivo e um exemplo para todos nós.

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