Bronca de Lula provoca reação em correntes mais à esquerda no PT

Após ex-presidente dizer que é preciso 'falar para fora', grupos disputam posições às vésperas de eleição no partido

Vera Rosa e Ricardo Galhardo, enviado especial, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2017 | 19h55

BRASÍLIA - O pito que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu no PT na noite de quinta-feira, 1, ao dizer que as correntes internas precisam “falar para fora”, e não se engalfinharem por assentos na Executiva do partido, provocou contrariedade nos grupos mais à esquerda.

“Se não tivéssemos tendências no PT, com certeza não teríamos sobrevivido a essa crise”, reagiu o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont, da Democracia Socialista (DS). “Levamos dez anos para aprovar a representatividade proporcional na Executiva e rompemos com a ideia de partido monolítico. Não vamos mudar isso."

Na abertura do 6.º Congresso Nacional do PT, na quinta, Lula cobrou unidade das tendências para superar a maior crise da história do partido. “O importante não é saber quantos delegados vocês vão ter na Executiva, mas, sim, saber se a gente vai ter capacidade de falar para corações e mentes”, discursou o ex-presidente. “Esse é o desafio que está colocado para nós. Não é qual tendência que vai ganhar.”

Os senadores Gleisi Hoffmann (PR) e Lindbergh Farias (RJ) vão disputar neste sábado, 2, a presidência do PT, substituindo Rui Falcão. Líder do partido no Senado e ré na Lava Jato, Gleisi é candidata da Construindo um Novo Brasil (CNB), a corrente de Lula, e favorita para ocupar o posto. Lindbergh tem o apoio do grupo Muda PT, que reúne cinco tendências mais à esquerda.

A corrente de Lula deve continuar majoritária no comando do PT, mas as alas à esquerda tentam emplacar pontos no programa que servirá de base para nortear os rumos do partido, como a defesa mais veemente do socialismo.

“Eu acho que Lula tem razão quando diz que precisamos falar mais para fora. Às vezes, ficamos discutindo muito nossa vida interna”, afirmou o líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini (SP), integrante da CNB. "As tendências de hoje, no partido, estão burocratizadas. Não formulam, não dão diretrizes e, portanto, ficaram obsoletas", completou o deputado José Guimarães (CE), vice-presidente do PT.

Para Raul Pont, no entanto, as correntes têm o direito de disputar suas posições programáticas e não há qualquer razão para ficarem de fora, sob o argumento da pacificação interna.

Apesar da “chamada” nos delegados do Congresso, Lula já disse em reuniões reservadas que quer um “núcleo político forte” na direção do partido. A Executiva do PT aumentará o número de cadeiras de 18 para 26 e o Diretório Nacional, hoje com 82 integrantes, ficará com 90. Falcão deixa a presidência e vai concorrer a uma vaga de deputado federal, em 2018, mas deve permanecer na Executiva.

Plano de emergência. O PT também aprovará neste sábado um Plano Nacional de Emergência, que servirá como base para as diretrizes de seu programa de governo, em 2018. Na lista das propostas está o uso “criterioso e gradual” de 25% das reservas cambiais em um Fundo Nacional de Desenvolvimento e Emprego, destinado a investimentos em infraestrutura e no setor produtivo.

A proposta chegou a ser apresentada à então presidente Dilma Rousseff, mas foi rejeitada. Depois do escândalo na Petrobrás, revelado pela Lava Jato, o PT também quer “retomar a política de conteúdo nacional” da empresa, modificada no governo Temer, sob a justificativa de que é preciso gerar empregos no País e superar a perda de postos de trabalho dos últimos dois anos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.