Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão
Imagem Eliane Cantanhêde
Colunista
Eliane Cantanhêde
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Brincadeira de vida ou morte

Entre o correto e o conveniente politicamente, Bolsonaro optou pela conveniência política

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2020 | 19h47

Há tempos o Brasil não assiste, à luz do sol, a um gesto de tal irresponsabilidade quanto o do presidente da República jogando para o alto as recomendações de saúde e se encontrando com manifestantes em frente ao Planalto. Em nova versão da “fantasia”, Jair Bolsonaro passou população a seguinte mensagem: danem-se o Ministério da Saúde, os especialistas, os médicos!

Entre o correto e o conveniente politicamente, Bolsonaro optou pela conveniência política, o que se torna ainda mais irresponsável quando a epidemia está só começando no País e, ao lado dele, estava o diretor substituto da própria Anvisa. Chocante.

Assim como dá de ombros e vai em sentido oposto aos apelos do ministro da Economia pelas reformas, Bolsonaro não dá bola para as recomendações do ministro da Saúde para reduzir  o risco de contaminação e evitar mortes. Não entende o tamanho da sua responsabilidade, a importância do seu exemplo.

Enquanto Paulo Guedes defende reformas, Bolsonaro senta em cima das propostas do Executivo e ataca, dia sim e neste domingo também, quem vai votar as mesmas reformas: o Congresso. Ele publicou fotos e vídeos justamente com faixas de “Fora Maia” nas manifestações. Sem Rodrigo Maia, não há reformas.

E, enquanto Mandetta e as autoridades de saúde de todo o mundo advertem que em pessoas acima de 60 anos o Covid-19 é mais letal e que todos que tiveram contato com contaminados devem se preservar ­_ e, principalmente, preservar os outros _, o que faz Bolsonaro? Vai à rua, toca pessoas, pega seus celulares.

É contra a ciência, os deveres do cargo, os direitos dos cidadãos, o bom senso. E danem-se as pessoas que, ingenuamente, ou por ignorância, foram colocadas em risco por quem ainda é sujeito a um segundo teste e tem recomendação de isolamento, depois de dias ao lado de contaminados. Não é coisa de gente séria, muito menos de presidente da República.

Mas Bolsonaro não foi o único irresponsável. Nas manifestações do “Fora Maia”, “Fora STF” e “SOS Forças Armadas”, difícil apontar o mais grave: o ataque às instituições, o uso do nome das Forças Armadas em vão ou o risco em que aquelas pessoas se colocavam e principalmente colocarão as outras, todas as outras.

De classe média e média alta, elas vão ameaçar a saúde de familiares, empregadas domésticas, vendedores, caixas, vizinhos, conhecidos. Não viram o que ocorreu na China e não vêem o que assola a Itália, o resto da Europa, os EUA?! Fanáticas, ainda acreditam na versão de Bolsonaro de que tudo era fantasia? Não é fantasia. É um pesadelo sem fim, questão de vida ou morte.

Tudo o que sabemos sobre:
Jair Bolsonarocoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.