Brigas agora são constantes no Supremo

Ministros não sabem dizer por que o clima está tenso, mas desavenças começaram no julgamento do mensalão

Felipe Recondo, O Estadao de S.Paulo

20 de outubro de 2007 | 00h00

O Supremo Tribunal Federal (STF) não tem feito jus ao símbolo da Justiça: uma balança sempre em equilíbrio e uma espada para defender o Direito. Nas últimas semanas, a balança perdeu o equilíbrio e a espada vem sendo desembainhada com freqüência. Na sessão de quinta-feira, irritado com os colegas que discutiam um julgamento desordenadamente, Eros Grau, relator da ação em pauta, levantou-se e abandonou o plenário. "Descompassos nós sempre tivemos, mas não assim de forma tão reiterada em curto espaço de tempo", admitiu o ministro Marco Aurélio Mello, há 17 anos no STF. Divergências numa corte de 11 ministros são e sempre foram constantes, mas os ataques e divergências levados para o lado pessoal eram raridade. Desde o mês passado, essas discordâncias têm gerado discussões e troca de acusações. Os ministros mais antigos no STF relacionam o acirramento dos ânimos à troca recente de sete dos 11 ministros do Supremo, todos indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não estariam esses novos ministros acostumados com o julgamento numa corte, com o confronto de opiniões.A hipótese não se sustenta. Os conflitos de vaidades envolvem também veteranos e a destemperança não se restringe aos mais novos. No final de setembro, o ministro Gilmar Mendes, vice-presidente do STF, discutiu gravemente com o colega Joaquim Barbosa durante o julgamento de uma ação no plenário. Desde então, os dois mal se falam. E o processo que estava sendo julgado até agora não voltou à pauta. Outros ministros alegam que os assuntos em discussão nas últimas semanas são polêmicos, o que tem gerado maiores conflitos. "Ultimamente temas mais delicados têm surgido, antagonizando os membros da corte. E, nesses casos, o temperamento tende a suplantar nossa tradição de cordialidade e temperança", explicou o ministro Carlos Ayres Britto.Porém, em outros julgamentos de temas tão ou mais complicados, os ministros não perderam a compostura. Se é difícil definir o motivo, é simples definir a origem desse clima. Começou no julgamento da denúncia do mensalão, quando os ministros Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia foram flagrados discutindo, pelo computador, a formação de grupos no tribunal. Esse clima de animosidade não é exclusividade deste STF. No passado, Sepúlveda Pertence, que já se aposentou, também abandonou o plenário durante julgamento. Em outra ocasião, os ex-ministros Moreira Alves e Xavier de Albuquerque discutiram duramente em plenário.

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