Briga entre Doria e Leite pelo controle do PSDB tem impacto no Congresso

As duas alas se movimentam na Câmara para eleger o novo líder da bancada tucana, em dezembro

Vera Rosa, Brasília

18 de novembro de 2021 | 15h38
Atualizado 18 de novembro de 2021 | 20h09

Caro leitor,

As prévias do PSDB para a escolha do pré-candidato à Presidência da República movimentam cada vez mais os bastidores do Congresso. Marcada para o próximo domingo, 21, a disputa entre os governadores João Doria (São Paulo), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio terá impacto na definição do novo líder da bancada na Câmara em um momento no qual o partido recebe críticas por se aliar ao Palácio do Planalto nas votações.

Na prática, o resultado das prévias vai indicar o rumo do PSDB, hoje com a imagem bastante arranhada pela adesão a propostas do presidente Jair Bolsonaro. Diante desse cenário, há preocupação da cúpula do partido para que a briga fratricida entre Doria e Leite não enfraqueça ainda mais os tucanos na eleição de 2022. O receio é de que o PSDB se transforme de vez em apêndice do Centrão, e não em alternativa da terceira via no embate entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A entrada do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro no páreo presidencial, com o anúncio de que Affonso Celso Pastore já atua como seu conselheiro econômico, provocou rebuliço no mercado da política e dividiu ainda mais o PSDB. Economista respeitado, o ex-presidente do Banco Central é um dos líderes do Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP), que deu start a dois manifestos com fortes críticas a Bolsonaro. Um deles cobrou providências no combate à covid-19 e outro saiu em defesa da democracia e das eleições livres.

Pastore já é visto como “Posto Ipiranga” de Moro, na campanha pelo Podemos, embora negue que vá desempenhar esse papel. “Mas o time do PSDB tem Armínio Fraga, Pérsio Arida, Pedro Malan, Edmar Bacha, Luiz Carlos Mendonça de Barros...”, amenizou o ex-deputado Marcus Pestana, secretário-geral do PSDB e integrante da comissão das prévias do partido. “Temos uma rede de postos Ipiranga. Não apenas um.”

É num cenário político com muitas turbulências no horizonte que se desenvolve o embate entre as alas do PSDB no Congresso. Embora possa parecer uma briga paroquial, a disputa pela liderança do PSDB na Câmara é estratégica. De um lado está o grupo de Doria e, de outro, o do deputado Aécio Neves (MG), que apoia a candidatura de Leite.

Arthur Virgílio sabe que não tem chance nas prévias, mas entrou no jogo como representante da velha guarda do PSDB para ter uma tribuna de contraponto e cobrar a “desbolsonarização” do partido.

Não é tarefa fácil. Nas duas votações da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos precatórios, a bancada do PSDB na Câmara votou majoritariamente com Bolsonaro. A PEC não apenas abre caminho para pôr de pé o Auxílio Brasil no ano eleitoral de 2022, mas também para a ampliação do fundo que sustenta as campanhas. Além disso, o Planalto pretende, com esse dinheiro, manter aberta a torneira das emendas parlamentares para irrigar redutos eleitorais de aliados.

Dos 32 deputados do PSDB, 21 cravaram “sim” à PEC dos precatórios e apenas 11 foram contra, no segundo turno da votação, no último dia 9. Três meses antes, 14 deputados tucanos também já haviam se posicionado favoravelmente ao voto impresso, outra bandeira de Bolsonaro.

O atual líder da bancada, Rodrigo de Castro (MG), é do grupo de Aécio e apoia a candidatura de Leite nas prévias. Se o governador do Rio Grande do Sul vencer, Aécio sai fortalecido na disputa pelo controle do partido. Se o vitorioso for Doria, um nome desponta com mais força para líder da bancada na Câmara: trata-se do ex-secretário da Casa Civil de São Paulo Samuel Moreira. A escolha do líder do PSDB na Câmara deve ocorrer em dezembro e a eleição para presidente da legenda, em maio de 2022.

Aécio e Doria protagonizam o racha mais emblemático no partido. Candidato derrotado do PSDB ao Planalto, na eleição de 2014, o ex-governador de Minas caiu em desgraça após a divulgação de uma conversa gravada, na qual pedia recursos para o empresário Joesley Batista. Longe dos holofotes, no entanto, Aécio tem atuado  para recuperar a imagem e é hoje o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. Doria já tentou expulsá-lo  mais de uma vez, mas não obteve sucesso na empreitada.

Em mais de uma ocasião, Aécio também disse que o PSDB deveria abrir mão da candidatura própria ao Planalto e ter a “generosidade” de avalizar um nome da terceira via com chances de enfrentar Bolsonaro e Lula. Apesar desta observação, o deputado tem se aliado ao governo. No seu diagnóstico, o partido precisa investir mais na eleição das bancadas no Congresso.

Por apoiar Leite nas prévias, porém, o mineiro mudou um pouco o discurso, embora afirme que eventual vitória de Doria no confronto do próximo domingo tem potencial para transformar o PSDB em “nanico”, levando o tucanato ao “isolamento absoluto”.

No Senado, o líder da bancada, Izalci Lucas (DF), está com Doria e o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati retirou sua candidatura nas prévias para reforçar a campanha de Leite. Pré-candidato do PSDB ao governo do Distrito Federal, Izalci deve permanecer na liderança, embora também possa ser substituído, dependendo do desfecho da briga interna. Detalhe: para se contrapor à bancada da Câmara, senadores do PSDB tentarão mudar o texto da PEC dos precatórios. A votação está prevista para a próxima semana.

Nessa queda de braço, o que não se sabe é se, afinal, o PSDB conseguirá empinar uma candidatura própria à sucessão de Bolsonaro ou se, por falta de apoio, acabará compondo o time dos candidatos a vice na chapa. O último capítulo das prévias pode, ainda, provocar uma debandada nas fileiras do PSDB.

Há quem diga que o ex-governador Geraldo Alckmin, apoiador de Leite e de malas prontas para deixar o partido, só espera esse desfecho para saber o tamanho do ônibus que irá conduzi-lo na próxima campanha. Ao Palácio dos Bandeirantes ou mesmo a vice em chapa ao Planalto, numa dobradinha com Lula.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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