Briga divide o PT de São Paulo há 13 anos

Dentro da política paulista todos sabem que não devem convidar para a mesma mesa o presidente da Câmara Municipal, o vereador José Eduardo Martins Cardozo, e o secretário municipal de Governo, Rui Falcão. Também não convidem Cardozo e o ex-líder da prefeita Marta Suplicy na Câmara Municipal, o vereador José Mentor. Essa rivalidade entre os três se acirrou nos últimos dias por causa das emendas acrescentadas de última hora ao Plano Diretor, que fazem alterações de zoneamento em diversas regiões da cidade. O relator Nabil Bonduki (PT) revelou que as mudanças teriam sido impostas por Mentor. A confusão levou Cardozo a incluir a sua assinatura em um documento feito por alguns vereadores pedindo que a prefeita Marta Suplicy vete as emendas polêmicas - o que desagradou Falcão. Mas essa incompatibilidade entre eles existe há muito tempo. As divergências entre Mentor e Cardozo começaram durante o período em que os dois estudavam Direito e disputavam o comando do mesmo Centro Acadêmico. As disputas entre Cardozo e Falcão tiveram inicio durante o governo da ex-prefeita Luiza Erundina (na época filiada ao PT). Cardozo era o secretário de Governo e Falcão presidia o Diretório Municipal do PT. Antes de ser vereador, Cardozo trabalhou na administração pública. É procurador municipal concursado. Na gestão do ex-prefeito Jânio Quadros (1985-1988), caiu nas graças do então secretário de Negócios Jurídicos, Claudio Lembo, que lembra que Jânio sempre reclamava "daquele jovenzinho petista". O ex-prefeito insistia que Lembo "tomasse cuidado" com ele. "Ele dizia que o Zézinho tinha uma carreira longa como político", conta Lembo, sem esconder o orgulho do antigo pupilo. Cardozo também começou a dar aulas em universidades e logo se transformou em referência no campo de direito administrativo. Quem acabou fazendo a transição de governo entre Jânio e Erundina foi Cardozo, do lado do PT, que conversava com Lembo. Jânio se recusou a passar a cadeira. Surgia então o chamado PT Vivo, que tinha entre os seus líderes Cardozo e o ex-deputado Pedro Dallari (hoje no PSB). Isso incomodava o então presidente do diretório municipal, Rui Falcão, que defendia que a administração deveria se pautar pelas bandeiras históricas do PT. Cardozo defendia a Tarifa Zero. Falcão era contra O grande projeto da gestão Erundina era a cobrança do IPTU progressivo e a Tarifa Zero. Ninguém mais em São Paulo pagaria tarifa de ônibus. Para conseguir isso, Cardozo foi até a Câmara Municipal e negociou o apoio de vereadores de direita do PDS (hoje PPB) e do PFL. A Justiça acabou por vetar a cobrança do imposto. Na ocasião, Falcão foi contra essa negociação. Ao deixar o governo, Cardozo tentou uma vaga na Câmara. Com pouco mais de 10 mil votos, obteve a primeira suplência. Falcão conseguiu, algum tempo depois, a presidência do Partido dos Trabalhadores e foi peça fundamental nas duas campanhas presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva. Já José Mentor esteve na Câmara Municipal na legislatura de 92-96, sendo reeleito por duas vezes consecutivas. No plenário, as turras entre Cardozo e ele eram constantes. No final de 2000, Mentor era o presidente da Comissão de Finanças. Marta assumiria no ano seguinte. Mentor se debruçava sobre o orçamento. Cardozo também pertencia à mesma comissão e queria ser o relator do orçamento. Mentor indicou um vereador tucano, que abriu mão da indicação e a repassou para Cardozo. Mentor não queria Cardozo na presidência As brigas entre ambos não terminaram por aí. Cardozo foi reeleito para a legislatura atual com mais de 200 mil votos e se lançou candidato a presidente da Câmara. Mentor era contra. Tentou lançar a si mesmo e até outro candidato. Cardozo conseguiu o apoio dos novos vereadores (muitos ligados a partidos de direita, que hoje formam a base governista) e conseguiu se eleger presidente. Seu próximo passo seria tentar uma vaga para o Senado. Desta vez, Mentor e Falcão conseguiram barrar o sonho de Cardozo, que teve de se contentar em disputar uma vaga à Câmara Federal. Mentor também disputa o mesmo cargo, que já foi ocupado por Falcão, hoje deputado federal licenciado.

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