‘O Brasil é uma plataforma extrativista’, diz Aílton Krenak em fórum

‘Brazil Forum UK’ debateu desenvolvimento com líder indígena, o economista Joaquim Levy, a senadora Kátia Abreu e a ativista quilombola Valéria Pôrto

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2020 | 17h04

SÃO PAULO – Convidado para debater modelos de desenvolvimento para o Brasil, o líder indígena Aílton Krenak afirmou que os recursos no País tem sido encarados como uma “plataforma extrativista inesgotável” e que meras declarações de que direitos de povos tradicionais devem ser preservados são, para ele, cinismo. No painel “Que desenvolvimento queremos?”, no ‘Brazil Forum UK’, ele questionou a possibilidade de conciliar a preservação do meio ambiente com metas de produção agrícola e energética.  

“Seria cinismo a gente insistir num debate dizendo que os povos tradicionais tem algum direito e que as florestas e os rios tem uma política de preservação”, disse Krenak. “O Brasil é uma plataforma extrativista.”

Participaram do painel também a senadora Kátia Abreu (PP-TO), a quilombola ativista Valéria Pôrto, e o ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BNDES Joaquim Levy. Eles debateram desde desigualdade até o feito que danos na imagem internacional do País tiveram no investimento – e nas vendas do agronegócio brasileiro. O consenso entre os debatedores foi que, sem levar em conta as condições em que vivem comunidades marginalizadas, o desenvolvimento ficará pela metade

“Não somos realmente desenvolvido se tiver gente que ficou para trás, existe esse aspecto de universalidade do desenvolvimento”, disse Joaquim Levy. Ele também frisou a importância da preservação de recursos naturais e culturais para a sustentabilidade de negócios e do próprio desenvolvimento do País. “Há esse balanço entre querer crescer, fazer mais coisas, e conhecer os limites. Isso é saber aproveitar o recurso, como patrimônio da sociedade, tanto o recurso natural quanto o recurso cultural, a diversidade.Todo mundo já descobriu que você consegue chegar mais longe há mais diversidade de visões.”

Sobre diversidade cultural, a ativista quilombola Valéria Pôrto reforçou a importância da manutenção de tradições para a sobrevivência de sua comunidade, que desenvolve técnicas de agroecológia para subsistência. “Pensamos num desenvolvimento que`consiga trazer políticas públicas que dialoguem com o conhecimento que nós trazemos em nossas bases”, disse Valéria. 

A senadora Kátia Abreu, ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), começou sua participação no painel lembrando que suas respostas sobre desenvolvimento podem ter mudado muito nos últimos dez anos. Ela afirmou que não é necessário desmatamento para aumentar a produção da agricultura no Brasil – e defendeu p aumento de produtividade com tecnologia, sem expandir os territórios para cultivo

"Nós não temos motivo para brigar por terra", disse a senadora. "Nós só precisamos de inteligência e bom senso para satisfazer todos os brasileiros. O Brasil não precisa ser assim: 'ou cabe índio ou cabe branco, ou cabe quilombola', não existe isso no Brasil."

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