‘Setor cultural foi o primeiro a parar e será o último a voltar por completo’, diz gestor

Participantes do painel sobre desafios da cultura do 'Brazil Forum UK 2020' pontuaram dificuldades enfrentadas pelo setor em meio à pandemia e discutiram formas de financiamento

Fernanda Boldrin, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 16h48
Atualizado 01 de julho de 2020 | 21h11

O dirigente do Itaú Cultural e diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Eduardo Saron, afirmou que a crise no setor cultural se agravará ainda mais com a pandemia do novo coronavírus. “Nós, no mundo cultural, no mundo artístico, fomos os primeiros a parar, e seremos os últimos a voltar por completo”, afirmou Saron, durante painel sobre desafios da cultura no País organizado pelo Brazil Forum UK 2020 nesta quarta-feira.

Segundo ele, por uma série de “encontros e desencontros”, o setor de produção cultural enfrenta uma “diminuição drástica de recursos, tanto públicos quanto de empresas”.  Para Saron, o desafio de quem está no campo da gestão cultural agora é coletar dados e buscar evidências para sustentar a relevância do investimento na cultura. E, segundo ele, o ciclo de volta do setor cultural deve levar em consideração "dois Ps", um de curto prazo – de protocolos, que considerará como acolher artistas e público em uma nova fase –, e um ‘P’ de médio a longo prazo, ligado aos propósitos do setor e ao seu diálogo com a sociedade.

Além de Saron, também participaram do debate a cantora e compositora Teresa Cristina, o consultor cultural João Leiva e a diretora do Observatório de Fortaleza Claudia Leitão. A mediação foi feita por Eduardo Carvalho, bolsista da Chevening Clore Leadership, programa do governo britânico voltado ao desenvolvimento de lideranças nas áreas de arte e cultura.

 

Claudia Leitão elogiou a Lei Aldir Blanc, responsável por destinar R$ 3 bilhões aos Estados, ao Distrito Federal e aos municípios, a serem aplicados pelos poderes executivos locais em ações emergenciais de apoio ao setor cultural. A Lei, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, foi publicada em edição desta terça-feira, 30, do Diário Oficial da União.

Na visão de Claudia, a Lei representou um movimento “bonito”, porque foi “suprapartidário”, demonstrando “a potência da cultura”. O desafio que ela enxerga, agora, é de “fazer o que o Brasil ainda não conseguiu fazer, que é a base de um sistema nacional de cultura.” "É você ter recursos de um fundo nacional, que devem ir para fundos estaduais e que devem ir para fundos municipais", diz Claudia, que pondera que a dificuldade é de que esse recurso "chegue na ponta".

Já João Leiva concorda que fazer o recurso chegar na ponta é um desafio importante, mas se diz cético em relação ao sistema nacional de cultura. “Sou cético se vai funcionar essa ideia de um sistema nacional de cultura; o governo já discute essa ideia desde a época da ditadura, desde a década de 70”, diz ele, segundo quem a “pressão no nível municipal” deve funcionar melhor.

Teresa Cristina ainda destacou o papel da cultura na atual crise do novo coronavírus. Segundo ela, quem está colocando as pessoas "para dormir", fazendo a população se sentir melhor neste momento, é a cultura. "Já que a gente não pode viajar para fora, a gente vai viajando para dentro", afirmou. 

Em sua quinta edição, o Brazil Forum UK traz o tema “What’s Next Brazil? Alternativas para múltiplos desafios”. O evento, que este ano ocorre virtualmente, é promovido pela comunidade de estudantes brasileiros no Reino Unido, e pode ser acompanhado pelas plataformas do Estadão.

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