‘Na tentativa de criar democracia, falhamos profundamente’, diz filósofo

No 'Forum UK Brasil, Vladimir Safatle diz que origens da crise institucional do governo Bolsonaro estão em contradições da redemocratização; Fátima Bezerra e Vera Magalhães também participaram

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2020 | 16h51

Para o filósofo Vladimir Safatle, as raízes da crise institucional que o País vive hoje estão no modelo de governo aplicado na relação entre Planalto e Congresso desde a redemocratização. Convidado para o painel “Novas Ideologias e Disputas Políticas”, na quinta edição do Forum UK Brasil, Safatle disse que sucessivos governos falharam, desde 1985, em resolver contradições do chamado “presidencialismo de coalizão”, em que o presidente da República muitas vezes precisa conquistar apoio de partidos com ideologias opostas. 

“Nessa tentativa de criar uma democracia, nós falhamos profundamente”, diz o filósofo sobre o período da Nova República, a partir da Constituição de 1988. Ele acredita que a estagnação do modelo fez crescer a insatisfação da sociedade com instituições do poder, até explodir em grandes manifestações em 2013. “A Nova República teve muito essa característia: a paralisia impedia que o Brasil tivesse grandes reformas, tanto para o bem quanto para o mal.”

O painel Política e Democracia – Novas Ideologias e disputas políticas teve início às 17h desta sexta-feira, 26. Veja como foi:


O resultado é um cenário político em que “todos os atores políticos tradicionais do Brasil são questionados” e, nas eleições de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro consegue capitalizar esse sentimento em votos. 

O filósofo foi acompanhado no painel pela governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), e a colunista do Estadão Vera Magalhães. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chegou a confirmar presença no painel, mas disse que teve de ir a uma reunião de última hora e não participou.

A maior parte das discussões girou em torno das circunstâncias que facilitaram a vitória de Bolsonaro, do impeachment de Dilma Rousseff à Operação Lava Jato. Por causa da pandemia do novo coronavírus, o evento promovido pela comunidade de estudantes brasileiros no Reino Unido ocorre este ano por videoconferência e com transmissão exclusiva nas plataformas do Estadão.

“Ao longo desse processo, o que a gente tem visto é que foi se criando, cada vez mais, um caldo de ceticismo em relação à democracia”, disse a governadora, que vê no impedimento de Dilma o início do processo de crise entre instituições. Ela propôs que atores políticos se unam para a defesa de valores básicos. “É preciso, sim, ter clareza e responsabilidade de que nós precisamos nos unir em torno dessas bandeiras: a vida e a democracia.”

Já a jornalista Vera Magalhães lembrou que os esforços para a construção de uma “frente ampla” em defesa da democracia tem esbarrado em ressentimentos. Ela não vê uma saída clara para a situação de embate entre poderes da República. 

“Quando se tem discussão sobre se o (ex-juiz Sérgio) Moro pode entrar na frente ampla, se fulano pode, essa frente já não é ampla, é limitada”, disse Vera. “O ‘saco cheio’ com o ‘politicamente correto’, que eu acho que é uma maneira incorreta de classificar, ajuda a explicar uma aderência do Bolsonaro num setor da nossa elite.”

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