Ricardo Chicarelli/Estadão
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Dilema sobre quem terá atendimento à covid-19 é consequência de escolhas imorais, dizem filósofos

Participaram do painel mediado por Nathalie Gazzaneo os filósofos Mário Sergio Cortella e Viviane Mosé, além de Silvio Almeida, do Instituto Luiz Gama

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 14h50
Atualizado 07 de maio de 2020 | 15h44

A escolha que muitos profissionais da Saúde têm tido que fazer – sobre quem vai receber atendimento ou não, já que autoridades médicas já começam a fixar critérios para a fila das vagas de terapia intensiva – é resultado de uma cadeia de decisões imorais que foram tomadas anteriormente, de acordo com filósofos que discutiram os dilemas éticos da pandemia do novo coronavírus nesta terça-feira, dia 5.

“As escolhas que nós fazemos estão ligadas às escolhas feitas por aqueles que nos antecederam”, afirmou Silvio Almeida, do Instituto Luiz Gama, durante painel da Brazil Conference at Harvard & MIT que também contou com a participação dos filósofos Mário Sergio Cortella e Viviane Mosé, além de mediação de Nathalie Gazzaneo, mestre em Harvard. O evento anual organizado pela comunidade brasileira em Boston, nos Estados Unidos, ocorre este ano por videoconferência e conta com cobertura exclusiva do Estado.

“Ética tem a ver com responsabilidade”, reiterou Almeida. Ele comentou a fala de Cortella sobre a diferença entre culpa e responsabilidade: “O profissional da Saúde tem responsabilidade sobre as escolhas que vai fazer, mas não tem culpa”.

“Culpa tem autoria voluntária ou involuntária, por ação ou omissão”, explicou Cortella. “Mas o profissional da área da Saúde que hoje vive esse dilema está diante de decisões que foram tomadas antes da escolha que chegou para ele naquele momento”, afirmou o filósofo, citando a forma como foi estruturada a economia e a política de saúde.

“Se antes aquelas outras pessoas tivessem feito aquilo que é decente e moral de fazer, aquele profissional não teria que fazer as escolhas”, concluiu. Cortella abriu a sua fala falando que tempos de crise trazem o perigo de favorecer que se coloque a ética de lado e questionou se a ética deve perpassar o conjunto da existência humana ou ser algo que pode ser abandonado em épocas difíceis.

“Nessa crise, vamos seguir a lógica de cada um por si e Deus por todos ou a lógica de um por todos e todos por um?”, indagou. Ele também atentou para o fato de que, passada a crise, existe o risco de que se tenha vergonha de não ter feito o que era preciso ou, inversamente, de ter feito coisas que não deveriam ter sido executadas.

Para Viviane Mosé, “a ética é uma questão de inteligência” e “o dilema da humanidade é um dilema de maturidade”. 

“Ou a gente melhora o sistema de saúde ou os milionários também morrerão, porque o contágio é absoluto”, disse, fazendo alusão ao contexto da pandemia atual. “Os pobres morrem mais, não há dúvida, mas os milionários também são atingidos”, disse.

Confira, abaixo, a programação do evento para esta semana:

Como nos tornarmos um Estado reformista?, 5/5, 19h

Rodrigo Maia, Paulo Hartung, Marcos Mendes e moderado por Eliane Cantanhêde 

Ética em tempos de pandemia, 6/5, 19h 

Michael Sandel (Filósofo e Professor de Harvard) entrevistado por Pedro Bial

Os desafios dos Estados na Crise, 7/5, 19h

João Doria (SP), Helder Barbalho (PA), Renato Casagrande (ES), Flavio Dino (MA) e moderado por Andreza Matais

Estudo da desigualdade econômica e impacto do Covid-19, 8/5, 17h 

Michael Kremer (Prêmio Nobel de Economia em 2019)

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