Mônica Nóbrega/Estadão
Mônica Nóbrega/Estadão

Desigualdade social é um dos principais desafios de Brasília, dizem especialistas

Enquanto em áreas nobres do Plano Piloto a renda mensal supera R$5.400, moradores de cidades do entorno chegam a viver com um salário mínimo

Ludimila Honorato e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2017 | 05h00

Pensada para ser o centro político do País, Brasília concentra no Plano Piloto a maioria das oportunidades de emprego e de prestação de serviços. Mas ali vivem apenas 15% dos quase 3 milhões de habitantes da cidade.

Essa convergência reflete nas condições financeiras de quem mora no Plano - e de quem está longe dele. Em regiões nobres como o Lago Sul, por exemplo, a renda por habitante supera os R$ 5.400, enquanto em Ceilândia, a 30 quilômetros dali, cada pessoa recebe um salário mínimo, ou seja, menos de R$ 1 mil.

O fato de os brasilienses possuírem a maior renda do Brasil pesa no bolso da população. Foi o que chamou a atenção da estudante Letícia Marques. “Quando volto para minha cidade, não acredito no preço das coisas. É tudo muito, muito mais barato que em Brasília”, diz.

Segundo Roberto Piscitelli, professor de finanças públicas da UnB, o “inchaço do PIB” no Distrito Federal, junto aos bons índices, é resultado da presença de organizações de caráter nacional, internacional e sedes administrativas de empresas que oferecem salários acima da média.

A estudante Letícia, que é do interior de Minas, se surpreendeu com a desigualdade. “As pessoas que têm renda alta são poucas. Quem é de fora não tem essa imagem, porque tudo é muito focado no Plano Piloto, e até mesmo as pessoas daqui não enxergam as cidades satélites”, diz.

Qualidade de vida. No ranking mundial da qualidade de vida, produzido pela consultoria internacional Mercer e divulgado em março deste ano, Brasília ficou na 109ª posição. É a cidade melhor avaliada do País - à frente de Rio de Janeiro (118ª) e de São Paulo (121ª) - e uma das cinco mais bem avaliadas da América Latina. O levantamento considerou características como educação, saúde, serviços públicos, qualidade de vida e lazer.

Todos os bons indicadores, porém, escondem uma desigualdade de grandeza semelhante. No índice de Gini, que mede o grau de concentração de renda de um grupo, quanto mais próximo de 1, mais desigual é a sociedade. Em 2015, o Distrito Federal tinha uma avaliação de 0,555, acima da média nacional (de 0,491), segundo dados da Pnad. O índice de São Paulo, por exemplo, era de 0,460 e o do Rio de Janeiro, 0,503.

Essas diferenças sociais e econômicas implicam em questões como educação e formação profissional. Nas cidades ao redor da capital, a maioria da população tem apenas o ensino fundamental completo ou incompleto, aponta Eduardo Borges, professor de economia do Ibmec/DF. Nas regiões mais nobres, o nível de escolaridade chega à graduação e pós-graduação.

Para o especialista, a solução seria descentralizar e fazer melhorias nas cidades ao redor do Plano Piloto. “Com investimento na formação técnica e acadêmica, haveria acesso a melhores empregos e desenvolvimento nessas regiões”, diz.

Em nota, o governo de Brasília afirma que tem trabalhado para reduzir as disparidades de infraestrutura urbana a fim de aumentar o acesso às oportunidades de emprego e aos serviços públicos da população das regiões administrativas mais distantes.

Segundo Borges, outra opção seria diversificar a atividade econômica de Brasília, hoje centralizada no setor de serviços (43,2% do PIB), e promover incentivos fiscais a indústrias de tecnologia. “Isso gera alto valor agregado e pode ser uma alternativa para melhorar a participação desse setor na produção nacional. Além disso, melhoraria os salários, pois necessitaria de mão de obra qualificada”, afirma.

A administração de Brasília diz que tem investido em pesquisa aplicada e inovação. No último dia 12 de abril, foi publicado o Decreto nº 38.126 que instituiu a Política Distrital de Ciência, Tecnologia e Inovação - Inova Brasília, que visa apoiar iniciativas de pesquisadores, inventores e startups.

Problema histórico. As contradições urbanas do Distrito Federal vêm do passado. “A cidade foi pensada para 500 mil habitantes. Seu crescimento está relacionado ao poder de atração que a capital exerce sobre outros estados e municípios que, ainda hoje, buscam aqui novas oportunidades”, informou em nota o governo de Brasília.

Segundo o professor Roberto Piscitelli, os pioneiros da capital federal foram atraídos pela ideia de um Eldorado que cresceria, se desenvolveria e ofereceria bons empregos. Era a terra das oportunidades. “Muitos se beneficiaram com isso, especialmente os que tinham atividades profissionais e exploravam negócios próprios. Mas outros ficaram nas regiões periféricas”, conta.

Ele mesmo foi atraído por essa idealização. Nascido em Porto Alegre e vivendo em Brasília há 42 anos, Piscitelli foi buscar um pouco do Eldorado que existia ali, nas palavras dele. “Era um lugar tranquilo com a ideia de uma cidade promissora.” 

José Carlos Coutinho diz que, logo no início do povoamento, surgiram os núcleos urbanos que formariam a constelação de 31 cidades satélites no entorno da capital federal. “A atração inevitável que Brasília exerceu poderia ter gerado um planejamento metropolitano. Há dezenas de núcleos urbanos com população elevada e poucas oportunidades”, afirma.

Futuro. Brasília vai continuar crescendo, alerta Coutinho. “Será preciso formar uma administração regional metropolitana para gerir essa cidade complexa que está se formando em torno do Plano”, diz. Roberto Piscitelli acredita que, para melhorar, Brasília precisa investir em ações mais integradas de segurança, transporte e saúde que incluam o entorno.

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