Brasileiros têm mais telefones, carros e máquinas de lavar

Os domicílios ficaram mais bem equipados nos anos 90. O censo revela que, entre 1991 e 2000, houve crescimento significativo da proporção de bens duráveis e serviços na casa do brasileiro. Os campeões em elevação da década foram o telefone fixo, o carro e a máquina de lavar. Mas os bens mais comuns continuaram sendo o rádio, a televisão e a geladeira. Eles estão em mais de 80% dos domicílios. Dos cerca de 44 milhões de residências, 39,1 milhões têm rádio, 38,9 milhões possuem televisão e 37,2 milhões contavam com geladeira ou freezer em 2000. Os três apresentaram crescimento em relação ao início dos anos 90. Mas as maiores elevações foram registradas no consumo de bens que podem ser considerados mais supérfluos. Desde 1991, os domicílios com automóvel subiram 42% e os que têm máquina de lavar, 26%. O mesmo ocorreu com serviços. O Brasil em 2000 tinha mais linhas telefônicas (passou de 18,6% para 39,7%), mais esgoto (52,4% para 62,2%) e mais iluminação elétrica (86,9% para 93%). O crescimento recorde do acesso ao telefone pode ser explicado em parte pela redução dos preços ao longo da década, mas também pela mudança de hábitos, como explica a técnica do IBGE, Elisa Caillaux. Segundo ela, essa mudança também levou ao crescimento do consumo de computador e do videocassete na década.Mas apesar do otimismo ainda existe uma parcela da população que não tem acesso nem aos mais básicos eletrodomésticos. Segundo o censo, cerca de 7,5 milhões de pessoas não têm geladeira em casa. "Geladeira é um dos bens mais básicos e necessários à sobrevivência. Quem são esses 7 milhões que vivem sem conseguir conservar seus alimentos?", pergunta Elisa.Outro dado positivo revelado no censo é que em 2000 havia menos pessoas dividindo o mesmo quarto do que no início da década. Em 1991, o porcentual de domicílios com mais de três pessoas dividindo o mesmo quarto era de 17,7%. Passou para apenas 9,3% em 2000, indicando mais espaço para seus habitantes. "Nós não medimos as condições desse domicílio, se ele é adequado ou não. Mas já sabemos que tem menos gente se espremendo no mesmo quarto", analisa Elisa. "Outra coisa que temos que alertar é que, apesar disso, ainda há déficit habitacional no País", completa.O consumo da classe médiaPara evitar brigas entre os quatro filhos, aos poucos a bibliotecária do Senado Heliana Maria Dantas instalou aperelhos de TV em cada quarto. Hoje, a casa, situada em um bairro de classe média do Distrito Federal possui seis TVs, duas estão com defeito, e quatro aparelhos de som - um deles portátil. Assim cada um desfruta do programa e da música que quiser.À exceção de Julia, de 10 anos, a filha caçula, os outros três possuem seu próprio celular para usar na rua ou quando as duas linhas de telefone fixo da casa estão ocupadas. "Várias amigas usam celular", reclama a menina, sem conseguir dobrar a mãe que, atenta a estudos sobre riscos desses aparelhos à saúde de menores, já avisou que celular só depois dos 16 anos.A família de Heliana é típico exemplo de moradores da capital da República que se cercam de aparelhos domésticos e outros bens duráveis para aumentar o conforto. Quando mudou para a casa no Lago Norte, a primeira exigência de Heliana foi a compra de um lava-louça para seis pessoas e não abria mão do microondas, que utilizava até para esquentar a mamadeira de Julia. "É um comodismo que facilita o dia-a-dia", comenta Heliana, lembrando que atualmente é mais fácil adquirir carros, microcomputadores, aparelhos domésticos e celulares porque os preços são mais acessíveis e as lojas parcelam o pagamento a longo prazo. Com o salário de R$ 4.500,00, a bibliotecária fez questão de bancar os estudos dos filhos, em colégio particular. "O ensino público é muito fraco", justifica Heliana. Mas já avisou aos filhos Lauro, de 20 anos, e Pedro, de 18 anos, que se passarem para faculdades privadas terão de trabalhar para pagar a mensalidade. Da mesma forma que o filho Fernando, de 23 anos, que cursa faculdade à noite, trabalha no Ministério da Saúde e, nos fins de semana, dá aulas de hipismo. A independência financeira permitiu a ele comprar um carro, para não pedir emprestado o de sua mãe. E na hípica ajudou a treinar a irmã Julia, ganhadora de várias medalhas.

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