Brasil tem vitória parcial por reforma na ONU

O governo brasileiro obteve uma vitória parcial em sua campanha pela reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e, conseqüentemente, em sua ambição de figurar entre os membros permanentes do organismo. Ontem (17), a Assembléia-Geral da ONU decidiu, por consenso, determinar que seu presidente no período 2007-2008, o embaixador macedônio Srgjam Kerim, instaure e toque em frente um processo de negociação sobre a reforma do Conselho. A decisão refletiu, em especial, uma nova estratégia de movimentação do Itamaraty, que costurou uma posição comum sobre esse delicado tema com 30 países em desenvolvimento.A primeira expressão da satisfação do governo brasileiro veio acompanhada de uma perspectiva otimista e de uma ligeira cobrança em relação aos resultados concretos desse desafio. "O Brasil espera que esse processo nos capacite a completar a reforma do Conselho de Segurança durante a 62ª sessão da Assembléia Geral", declarou a embaixadora Maria Luiza Viotto, representante do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU), referindo-se ao período que começará no próximo dia 25 e será concluído em setembro de 2008."O Brasil estará engajado ativamente e construtivamente com todos os países interessados neste esforço", completou a diplomata, ao discursar ao final da reunião de ontem da Assembléia Geral.O resultado alentador, do ponto de vista do governo brasileiro, deverá ser explorado às largas no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na próxima terça-feira, durante a abertura da 62ª sessão da Assembléia. Assim como acontece desde 1946, o chefe de Estado brasileiro será o primeiro a discursar nesse evento, que reúne os principais líderes mundiais. O próprio Itamaraty reconhecia hoje, entretanto, que essa vitória não foi completa.O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, pretendia ver aprovada a instauração do processo de negociação da reforma do Conselho de Segurança na atual 61ª sessão da Assembléia. "As coisas estão caminhando progressivamente e na boa direção. O fato de a resolução ter orientado para o processo de negociações, por influência nossa, é positivo", afirmou uma fonte do gabinete do chanceler. "O tempo do debate já acabou. Agora está na hora de negociar e chegar a uma fórmula aceitável." A diplomacia brasileira movimentou-se de forma astuta para alcançar seu objetivo, mesmo que parcialmente. Em vez de prender-se ao G4 - o grupo que o Brasil compartilha com a Alemanha, a Índia e o Japão e que mostrou-se ineficaz nas suas tentativas de impulsionar a discussão sobre a reforma -, o Itamaraty buscou afinar suas posições com outros 30 países em desenvolvimento ao longo deste ano. Essa nova frente chegou a apresentar uma proposta comum à Assembléia-Geral, que acabou aceita em boa medida.Nesse grupo estão a Índia e a África do Sul, sócios do Brasil em várias outras frentes, como na Organização Mundial do Comércio (OMC), e em uma ampla parceria estratégica. Mas o diferencial desse agrupamento esteve na inclusão de outros países africanos, além da África do Sul, como Nigéria e Ilhas Maurício. Esse cuidado do Itamaraty em atrair essas nações refletiu um dado concreto e insuperável: sem o apoio da África, a reforma não se concretizará.Os 53 países do continente se uniram em torno de uma fórmula comum para a reforma do Conselho de Segurança em 2005 e, desde então, qualquer sinal de dissidência acabou revestido de alto custo político na região. Com essa receita cimentada, os africanos tornaram inviável a perspectiva de aprovação da fórmula defendida pelo G4 - a inclusão de mais seis países entre os membros permanentes, que teriam seu direito ao veto suspensos nos dez primeiros anos. A África fechou uma posição em favor de 26 novos assentos no Conselho de Segurança, entre permanentes e não-permanentes, e não abriu mão do total direito ao veto.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.