'Brasil só tem a ganhar' com 2º turno, diz FHC

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse na noite de hoje estar satisfeito com o aumento das chances de haver um segundo turno na disputa à sucessão presidencial. Pesquisa Datafolha divulgada hoje mostra queda de três pontos porcentuais da candidata do PT, Dilma Rousseff, que está com 46% das intenções de voto. José Serra, do PSDB, tem 28% e Marina Silva, do PV, 14%. "O Brasil só tem a ganhar", afirmou.

ANNE WARTH, Agência Estado

28 de setembro de 2010 | 20h54

"Os dados estão mostrando que estamos nos preparando para o segundo turno", disse FHC, em entrevista concedida ao chegar a evento de lançamento do livro "Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida", biografia escrita por Ignácio de Loyola Brandão. "Isso é muito bom para o Brasil porque mostra a variedade de opiniões. Estou torcendo e confiando que vamos chegar ao segundo turno."

O ex-presidente afirmou que um segundo turno servirá para amadurecer o debate político no País e para que se conheçam melhor os candidatos e suas propostas. O tucano levantou dúvidas sobre Dilma. "É bom para amadurecer mais e até para o Brasil saber um pouco melhor quem é a candidata que está na frente. Quem sabe exatamente o que ela é?", questionou. "Quem sabe no debate do segundo turno apareça com mais franqueza o ponto de vista de cada um. O Brasil só tem a ganhar."

Financial Times

O ex-presidente quis explicar ainda a entrevista que concedeu ao jornal inglês Financial Times, na qual teria admitido a vitória de Dilma. Ele disse ter sido questionado sobre como seria um eventual governo da petista, caso ela vença as eleições. "Ali foi uma pergunta que foi feita sobre o que seria. Era uma hipótese. Como não sai a pergunta, a resposta pode dar essa impressão", justificou.

FHC afirmou que não atua de forma mais intensa em defesa da candidatura de José Serra porque, desde que deixou a Presidência da República, decidiu não participar de campanhas. "Vocês acham que, se eu não quisesse participar mais ativamente, eu não estaria? Simplesmente acho que não cabe mais. Já cumpri o meu papel."

O tucano voltou a criticar os últimos ataques do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à imprensa. "A imprensa que diz amém a quem está no poder não é imprensa, é diário oficial. Tem de entender esse papel, mesmo sabendo que está exagerando, discordando, botando limites quando for o caso de ofensa à honra pessoal, mas tem de entender que a democracia requer liberdade de imprensa de forma absoluta", opinou.

Sobre Lula, o tucano comparou a postura do presidente com a do monarca Luís XIV, da França. "Eu não gosto de falar do presidente Lula, mas, enfim, os jornais estão vendo e registrando... Ele disse uma frase que acho incrível: ''Eu sou a opinião pública, nós somos a opinião pública.'' Isso parece o Luís XIV: ''O Estado sou eu.'' Não dá, passamos dessa época."

Feminista e dona de casa

O escritor Ignácio de Loyola Brandão evitou se posicionar politicamente na disputa presidencial. "Não declaro voto para ninguém. Isso é outra história", disse. Brandão contou que escreveu o livro, a primeira biografia de Ruth Cardoso, a pedido da editora Globo e por indicação de FHC.

De acordo com ele, a intelectual teria ficado satisfeita com um perfil que o escritor publicou sobre ela na revista Vogue. Para Brandão , ela teria dito que o perfil restabeleceu sua ligação com Araraquara (SP), cidade natal de Ruth e do escritor. Ele contou que levou um ano e meio para escrever o livro e entrevistou cerca de 80 pessoas.

"Foi um encontro de dois araraquarenses. A mãe de Ruth foi minha professora", explicou. No livro, o autor conta a importância de Ruth para o estudo da antropologia no País, sua atuação no programa Comunidade Solidária, no governo FHC, e suas facetas de feminista, dona de casa, cozinheira, mãe e avó. "Ela tinha muito bom humor", disse.

Uma das histórias que o autor resgata na obra fala sobre como Ruth se sentia quando tinha de comparecer a uma cerimônia organizada pela corte do Reino Unido. "Ela dizia que era como participar de um desfile de escola de samba: entrar, dançar e cantar conforme o samba-enredo e sair", afirmou.

O ex-presidente disse que sua mulher, falecida em 2008, era extraordinária e ficou satisfeito com a possibilidade de que o País conheça Ruth além da fama de antropóloga. "Brandão foi muito feliz ao retratá-la de uma maneira despretensiosa, mostrando como ela era, uma pessoa de vontade, mas ao mesmo tempo amável, simples e diligente."

FHC contou ainda que Ruth cozinhava muito bem e era excelente dona de casa. "Mas na hora de tirar a mesa, era eu quem fazia. Ela nunca aceitou ter empregada fora de hora lá em casa", afirmou.

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